ATOR EM DOSE TRIPLA
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de outubro de 2001
Rodrigo Teixeira<br> TV Press 
Murilo Benício parece um sujeito inseguro. À medida que o tempo vai passando, a impressão se confirma. O ator niteroiense gagueja ao falar e dá grandes pausas antes de responder a questões simples. Com uma voz vacilante emitida em volume baixíssimo, o jeitão de Murilo lembra de longe o tão neurótico quanto genial cineasta norte-americano Woody Allen - sem entrar no mérito do talento. O tempo todo o ator se mostra mais preocupado em não fazer feio na novela de Glória Perez do que em massagear o próprio ego por ver sua imagem triplicada na telinha global como os gêmeos Lucas e Diogo e o clone Leandro. ''Está sobrando galã na tevê brasileira. O que falta é sinceridade na interpretação'', ressalta o ator, que só ganhou uma chance em ''O Clone'' após a recusa de Fábio Assunção. ''Pedi para fazer esta novela'', assume.
Aos 30 anos e com oito novelas no currículo, Murilo demonstra pouco deslumbramento. Por outro lado, deixa transparecer reduzida autoconfiança para quem já tem oito anos de Globo e consideráveis participações no cinema, como em ''Orfeu'', de Cacá Diegues, e ''Amores Possíveis'', de Sandra Werneck. Tanto que não assume sozinho a responsabilidade por sua interpretação em ''O Clone''. ''Sei que, se não acertar o tom, o Jayme acha para mim. Dependo muito dos outros nesta novela'', afirma.
Animado com a chance de interpretar três personagens em uma única produção, o ator não sabe ainda como vai dar vida ao clone criado por Glória Perez. ''Em termos de personalidade, o Léo ainda é um enigma para mim'', revela o ator. Mas a grande expectativa de Murilo é em relação ao encontro entre Lucas e o seu clone Leandro, previsto para a terceira fase da novela, que vai ao ar no início de novembro. ''Espero que a novela gere uma discussão ética sobre a clonagem. O homem não pode ser Deus'', prega o ator.
Você se ofereceu para protagonizar ''O Clone''. O que o empolgou tanto assim na novela?
A possibilidade de interpretar os gêmeos e o clone. Algo difícil de acontecer na carreira de qualquer ator. Então, foi o único trabalho na Globo que liguei interessado em fazer. Na época, inclusive, era a Denise Saraceni que iria assumir a direção. Conversei com ela e a Denise disse que já havia falado com o Fábio Assunção. Mesmo assim, deixei claro que me interessava e, se precisasse, podia contar comigo. Me instigou a possibilidade de viver três personagens, sendo que um deles envelhece 20 anos.
Você não fica preocupado com a responsabilidade?
Não. Porque estou fazendo esta novela a partir dos outros. Com o Jayme Monjardim, Glória Perez, Marcos Schechtman e meus companheiros de elenco. Na cena em que o Lucas recebeu a notícia da morte do irmão, por exemplo, dependi muito do Stênio para realizar a gravação. A gente trocou uns palpites e observei muito os movimentos do Stênio, que tem uma grande energia em cena. Por isso, falo que estou fazendo a partir dos outros esta novela. Tenho muita coisa em que pensar.
Em quê, por exemplo?
Tenho de me preocupar com o aspecto mais técnico mesmo. Nas gravações entre os gêmeos, por exemplo, tinha de observar texto, marcações, iluminação e ainda não mexer em nada do cenário. Não mover um guardanapo, pois as imagens eram fundidas e teríamos de gravar de novo. Uma cena dessas depende de muita coisa para dar certo, inclusive de efeito especial. E quando o clone e o Lucas se encontrarem na terceira fase, vai ser a mesma dificuldade, pois os dois vão aparecer na mesma cena. Então estou tendo de suprir uma exigência mais técnica mesmo. Por isso, digo que, mais do que nunca, dependo dos outros nesta novela.
É uma maneira também de você dividir a responsabilidade de um eventual fracasso...
Não penso como responsabilidade. Já vi tantos atores ótimos fazendo grandes fracassos. Isso não me deixa tenso e nem encaro como responsabilidade. Estou fazendo o trabalho em ''O Clone'' da mesma forma que fiz outras novelas na Globo, mesmo que tenha sido uma ponta, como em ''Fera Ferida''. Para mim, não tem papel maior ou menor. Obviamente que tenho a responsabilidade de puxar a novela. Isso faz com que eu discuta mais sobre o personagem. Então penso não só no amanhã, mas no futuro da novela. A diferença agora é que tenho de me envolver com a produção como um todo e não só chegar e gravar. Tenho de pensar em como vou interpretar o clone, por exemplo.
E como vai ser o clone?
Não sei ainda. Tive uma conversa com o Jayme, mas não está nada certo. Talvez ele venha exatamente igual ao Lucas quando era novo. A idéia é que o Lucas se reconheça no clone. Assim, podemos abrir uma porta para a Glória fazer o Lucas refletir sobre a vida dele, o que ele fez ao assumir as empresas do pai e ter abandonado o sonho de ser músico. Pode ser interessante esta reflexão. Claro que vai depender muito da Glória, mas confio absolutamente nela, em respeito a toda a sua obra. O que a Glória escrever eu faço de olhos fechados. Inclusive, entrei nesta novela principalmente porque confiava nesta história.
O Lucas vai aparecer 20 anos mais velho na terceira fase da novela e amargurado com o destino de sua vida. Como você vai caracterizar este drama do personagem?
Estou pensando bastante sobre o tempo biológico que separa as pessoas. Estive prestando atenção no meu filho, que tem agora quatro anos. Eu tenho 30. É praticamente a mesma diferença de idade que vai haver entre o clone e o Lucas. Meu filho tem uma disposição que eu não tenho nem no melhor dos meus dias. Ele fica para lá e para cá, grita, pula... Acho que isso é uma característica de uma pessoa jovem. O adulto já tem um tempo mais lento. Não por cansaço, mas por serenidade para fazer as coisas. Vou tentar passar esta diferença de ritmo entre o clone e o Lucas.
Interpretar convincentemente o envelhecimento do Lucas chega a preocupá-lo?
Me preocupa, mas nem tanto. Porque estou muito confiante no Jayme. Ele me passa muita segurança. Sei que, se eu não achar o tom, ele vai achá-lo comigo. Por isso, nem fico em casa fazendo o Lucas com 40 anos. Estudo o que vou fazer no dia seguinte, o que pode acontecer, como posso usar as entrelinhas. Porque penso muito no que existe entre as pausas do texto de um autor. O que posso colocar numa pausa que faça a diferença. Sempre fico planejando como vou pegar o público de surpresa e instigar o espectador com a novela.
Existe a possibilidade de você também ser pego de surpresa e ter seu personagem totalmente modificado. Você está preparado para este tipo de reviravolta, já que novela é uma obra aberta?
Na minha opinião, esta imprevisibilidade é o grande barato de se fazer novela para o profissional de televisão. O ator tem de estar com o seu personagem preparado para qualquer coisa durante uma novela. Muitas reviravoltas. Hoje, posso estar tendo uma linda história de amor com a Jade e amanhã largar a amada e ficar com uma pessoa que não estava nem prevista na sinopse. Você não pode deixar de jeito nenhum que isso influencie sua interpretação. Tem de ser profissional. E acho que este é um exercício que o ator precisa fazer para se tornar completo.
Em ''Vira-Lata'', você também interpretou gêmeos. A experiência está contribuindo em algo para ''O Clone''?
Vou ser sincero e dizer que até agora não havia me lembrado deste fato. Mas foi uma experiência muito diferente, porque não usamos nada de efeito especial em ''Vira-Lata''. Já em ''O Clone'', os personagens que represento aparecem na mesma cena, conversam um com o outro, se tocam... É bem mais confuso e trabalhoso de fazer. Em ''Vira-Lata'', era um personagem em cada canto. Não sei se ajudou muito, porque estou achando difícil fazer este trabalho agora. Estou longe de dizer que está sendo fácil ou que estou fazendo com os pés nas costas.
O tema clonagem também contribui para esta dificuldade, já que não é um assunto de fácil compreensão?
Talvez. Para ser sincero, nunca havia parado para refletir sobre clonagem. Fui pensar sobre o assunto já na novela, conforme recebia informações sobre quais os benefícios que a clonagem pode trazer. São dois lados de uma moeda. Em termos científicos, por exemplo, a clonagem de órgãos pode representar a cura para várias doenças. Já pelo lado religioso, clonar um ser humano cai na questão do homem querendo ocupar o lugar de Deus. A novela tem de gerar uma discussão sobre isso. Se você me perguntasse quem eu gostaria de clonar, eu diria ninguém, porque cada pessoa tem de ser única.


