Cássio Gabus Mendes é do tipo pé-no-chão. Com mais de 20 anos de carreira como ator, o filho de um dos ‘‘fundadores’’ da televisão brasileira na década de 50 – o escritor, ator e diretor Cassiano Gabus Mendes – conhece desde criança os prós e contras da profissão. Talvez por isso não demonstre qualquer deslumbramento com o assédio que faz parte do cotidiano dos atores das principais produções televisivas. Apesar da larga experiência, somente aos 39 anos Cássio está tendo a chance de interpretar um personagem mais complexo na televisão. Na novela ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’, o ator vive o farsante Paulinho, um copeiro um tanto machista que se faz passar pelo afetado estilista Selmo de Windsor.
Com mais de 15 novelas no currículo, Cássio estreou na tevê em 1981 numa produção dramatúrgica exibida na TV Cultura, de São Paulo. Um ano depois, ele fez a novela ‘‘Elas por Elas’’, na Globo, mas se projetou em 84 em ‘‘Champanhe’’. Nesta produção, ele interpretou o temperamental e rebelde Greg.
Como está sendo interpretar um personagem tão ambiguo?
Muito divertido. Principalmente porque o personagem é cheio de conflitos. Na verdade, o Paulinho é um só. Uma hora, ele se passa por estilista gay e depois por um mulherengo incorrigível. Então, dá para fazer algo bem escrachado. São duas e até três personalidades embutidas numa única pessoa. Este é o grande barato da profissão de ator. Quando pego um personagem com estas vertentes e possibilidades, vejo meu trabalho se tornar mais consistente. Tenho conseguido tudo isto nesta novela e, consequentemente, desviado toda minha atenção para o trabalho. Este é o maior reflexo quando a novela é agradável e produtiva.
Você teve receio em fazer um gay tão escrachado como o falso Selmo de Windsor?
Vejo o Selmo como uma grande brincadeira. No sentido da palavra mesmo. Justamente por ele ser um farsante. Não vejo qualquer tipo de polêmica em interpretar um gay.
E a reação do público?
Na verdade, tenho tido pouco contato com o público. Primeiro porque sou bastante caseiro. Não sou um cara de muita badalação. Outra razão é porque fico na ponte-aérea Rio/São Paulo. Mesmo assim, vejo uma reação positiva do público. O jeito irreverente do Selmo parece estar agradando muito as pessoas. Eu também estou gostando muito da novela.

O personagem começou discreto na trama. A que você atribui o aumento da participação dele?
Em função do próprio conflito desenhado pelos autores, era natural que o personagem fosse tomando esta proporção. Não tinha como ser diferente. Principalmente porque ele integra o principal núcleo da novela. Não está sendo nenhuma surpresa. Mas de qualquer forma, a participação de todos os personagens na história está bem dividida e amarrada. Adotando muito bom humor aliado a um drama, os autores conseguiram equilibrar toda história.
Você teve alguma preocupação em não deixá-lo caricato?
Quando a gente recebe um papel deste tipo, é inevitável ele ficar caricato. Porque, como já disse, o Paulinho é um farsante. Isto também facilita o entendimento e a compreensão das pessoas. Por isso, me permito gritar mais, ou seja, subir o tom da voz do personagem. Este é o grande segredo. Assim a composição evolui gradativamente. O que reparei no Paulinho é que ele é muito simples. E o risco de ser desmascarado a todo instante faz ele viver sempre no sufoco e na apreensão. Então, o que o Paulinho faz para aliviar esta tensão é extrapolar. Assim, ele acredita que não vai estar dando nenhuma bandeira. Esta insegurança do personagem foi passada pelo autor na sinopse.
O Antônio Calmon disse que o Selmo de Windsor era uma forma de homenagear o seu pai, o autor Cassiano Gabus Mendes, que criou dois inesquecíveis estilistas na novela ‘‘Ti-Ti-Ti’’: o Victor Valentim, interpretado pelo seu tio Luiz Gustavo, e Jacques Léclair, vivido por Reginaldo Faria. Você buscou alguma referência destes personagens para compor o Selmo?
O Jacques tinha uma linha completamente diferente. Era mais agudo e realmente um profissional da moda, enquanto o Selmo é um impostor. O personagem que realmente parecia com o Selmo era o Victor Valentim, outro estilista farsante da novela. Mas não busquei qualquer referência.
Antes de fazer esta novela, você ficou dois anos interpretando o Afraninho no seriado ‘‘Mulher’’. Você tem predileção pelos personagens mais cômicos?
Os papéis acontecem naturalmente. Ao longo de minha carreira, uma das preocupações que tive foi procurar não repetir o mesmo estilo de personagem. Principalmente porque na televisão é muito fácil o ator ficar rotulado. Mas não tenho a menor dúvida de que é prazeroso viver os personagens mais cômicos. Ao longo dos 20 anos de carreira, fiz vários papéis prazerosos. A minissérie ‘‘Anos Rebeldes’’, por exemplo, onde fiz o estudante subversivo e contestador João Alfredo, foi muito marcante. Foi um trabalho que retratava a ditadura militar nos anos 60. Foi muito importante para duas ou três gerações que não tiveram um grande conhecimento daquele movimento. Até porque na escola era proibido falar do tema. Todo este lado histórico serviu para quebrar o mito. Além do mais, a minissérie foi exibida justamente no momento em que o ex-presidente Fernando Collor de Mello estava sendo cassado pelo Congresso Nacional. O país, então, vivia uma euforia política. Mas guardo também com muito carinho trabalhos como nas novelas ‘‘Ti-Ti-Ti’’, ‘‘Brega e Chique’’, ‘‘Vale Tudo’’, ‘‘A Indomada’’ e ‘‘Tieta’’, onde interpretei um seminarista.
Você sempre pensou em seguir a carreira de ator?
Por causa do meu pai, desde criança acompanho este negócio de televisão dentro de casa. Mas a gente nunca sabe se aprende a gostar ou se já nasceu para fazer. Desde moleque, já fazia teatro amador no colégio. Hoje, na minha cabeça, não me vejo em outra profissão. Mas acho que se não seguisse a carreira de ator, estaria na área de comunicação social. Como publicitário ou jornalista, sei lá.
Então, a influência do seu pai foi decisiva para você seguir a carreira?
Importantíssima. Mas meu pai nunca impôs para que eu e meu irmão virássemos atores. Ele era até um profissional muito exigente. Cobrava muito da gente.
Com tantos anos de televisão e com a referência do seu pai, como você vê o formato das telenovelas hoje em dia?
Como as novelas são muito longas, é inevitável que se criem ‘‘barrigas’’. Acho que se o número de capítulos fosse reduzido, as tramas se tornariam mais dinâmicas e, consequentemente, mais compactas. Mas já ouvi diretor dizendo que as novelas curtas são caríssimas. Não têm um retorno tão grande. Por isso não se faz minissérie ao longo de todo ano. Mas quem sabe um dia este formato mude?

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