ATOR A TODA PROVA
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de outubro de 2000
Mariana Meireles TV Press 
Norton Nascimento incorporou de vez o papel de músico em tramas de época. No ano passado, interpretou o flautista Callado na minissérie Chiquinha Gonzaga, de Lauro César Muniz. No momento, faz o percussionista Bemol em Aquarela do Brasil, do mesmo autor. Mesmo com tantas semelhanças entre os papéis, Norton percebe também muitas diferenças. O Bemol é um cara sem estudo, que tem um talento nato. Já o Callado era um mestre da música e tinha preocupações políticas, avalia o ator. Em relação à maneira de interpretar os dois músicos, Norton vê uma vantagem no Bemol. Ele é mais descontraído, por isso posso brincar mais com o texto. Com o Callado tinha que dizer exatamente o que estava escrito, porque ele era muito recatado, explica.
Aos 38 anos de idade e 11 de carreira como ator, Norton já interpretou mais de 15 tipos. Mesmo sem admitir uma predileção por algum deles, ele considera o atual personagem como um dos que mais se identifica. O Bemol é puro e humano. Assim como eu, ele procura ajudar os outros e gosta de brincar com crianças, compara. A semelhança entre o ator e Bemol não pára por aí. Norton também tem uma forte ligação com a música e, como o percussionista de Aquarela do Brasil, nasceu com o dom. Aprendi a tocar violão sozinho. Não decoro notas, pego tudo de ouvido, revela o ator, que já lançou o CD Olhar, pela gravadora Paradoxx, em que canta músicas no estilo soul e black music.
Além de ator e músico, Norton já teve várias outras experiências profissionais. Foi jogador de basquete dos nove aos 27 anos e jogou em vários times, entre eles Juventus, São Paulo, Palmeiras e Mogi das Cruzes. Foi Campeão Brasileiro pelo Palmeiras em 82 e Estadual Paulista em 79 e 81. Neste tempo, também deu aulas de Educação Física para crianças, ginástica e musculação. Paralelamente à vida de atleta, trabalhou como modelo. Dava para ganhar uma grana legal, lembra. A opção pela carreira de ator surgiu quando as portas do basquete se fecharam para Norton. De uma hora para a outra, todas as propostas que eu tinha sumiram. Então resolvi fazer um curso de teatro, explica.
De lá pra cá, Norton não parou mais. Estreou na tevê em 89 como parte do elenco de apoio do humorístico Veja o Gordo, que Jô Soares fazia no SBT. Logo depois, atuou pela primeira vez no teatro, na peça Os Negros, de Jean Jenet. A estréia na Globo aconteceu em 92 no seriado Era Uma Vez Madalena, de Del Rangel, onde contracenou com Regina Duarte. Em 93 viveu o assassino bissexual Chicão na minissérie Agosto. Segundo Norton, esse personagem foi o responsável pelo reconhecimento possui. Era um papel difícil, que me deu um respaldo profissional na Globo. Quando me viram, os diretores se perguntaram: quem é esse cara?, valoriza. Além do Chicão, Norton também se destacou como o Wotan de Fera Ferida e o preconceituoso Sidney de A Próxima Vítima.
Participações especiais em programas de tevê também estão no currículo do ator. Só no ano passado e neste, entre Chiquinha Gonzaga e Aquarela do Brasil, apareceu em programas como os humorísticos Casseta & Planeta Urgente, Sai de Baixo, Zorra Total e Garotas do Programa, além do seriado Mulher e do Você Decide.
Apesar de estar sempre rodeado de boas oportunidades, Norton acredita que nunca vai ter a mais cobiçada por qualquer ator: fazer um protagonista na Globo. Acho que nunca vou conseguir, porque não interessa para a emissora dar o papel principal para um ator negro. Nem em novelas que têm escravos isso acontece, lamenta Norton, que viveu o Zumbi dos Palmares em uma minissérie do mesmo nome na TV Educativa. No momento, o ator preenche a cabeça com outros planos. No final deste ano, vai começar a filmar o curta-metragem O Anjo do Apocalipse do 38º, ao lado de Ítalo Rossi e Letícia Sabatella. Além de atuar, ele vai fazer a direção de atores pela primeira vez no cinema.
Religioso, Norton Nascimento conta que descobriu ser médium aos nove anos de idade, quando estava falando sozinho próximo a um rio e viu índios, que respondiam ao que ele dizia. Mais tarde percebeu que além de ver e ouvir espíritos, também tinha o dom da premonição. Só não tenho o da psicografia, que é escrever mensagens através dos espíritos, completa.
O ator garante que já teve várias provas físicas dos dons que possui. Uma delas foi quando sua ex-mulher estava grávida de sua filha Luana, que hoje tem 15 anos e é deficiente auditiva, e pensou em fazer um aborto após saber que estava com rubéola, o que poderia trazer algum tipo de sequela à criança. Estávamos quase decididos quando ouvi minha filha pedindo para nascer e se chamar Luana. É uma loucura imaginar que foi ela que escolheu o próprio nome, revela o ator.


