Atitudes condicionadas e impregnação poética
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de março de 2002
Rubens Pileggi<br>Especial para a Folha 2 
Contágio, contaminação, troca de humores, não há o que continue o mesmo ao se relacionar com o meio, seja ele rico de possibilidades ou estagnado e viciado no modo de se apresentar, sem nunca trazer nenhuma novidade, a não ser aquela da repetição das mesmas coisas. E se tudo se relaciona por uma questão de aderências, nossas atitudes só podem ser ecos de outras experiências que apontam para uma poética da existência, ou de um acomodamento condicionado a certas situações.
Marta Neves é uma artista mineira que tem um trabalho onde cita pessoas ou mostra figuras de famosos para realçar frases em que a pretensão de um alto repertório cultural e a baixa informação veiculada pela mídia se transformam em humor crítico e ironia. Como fez em uma série de capachos onde desenha com linha o rosto das pessoas e frases de efeito. Em uma delas, o apresentador Silvio Santos está ao lado de uma pergunta típica do show do milhão, querendo saber o nome que se dá à coleção de obras de um museu.
Falamos de uma coisa que fica impregnada de outras quando alguma característica prévia se transforma depois do contato com outra substância. Por exemplo: Carla Zaccagnini parte de uma situação já existente para realçá-la como trabalho artístico. Mas ao invés de pegar qualquer material, ela se utiliza de certas questões, como no caso do trabalho intitulado Panorama, em que investiga uma intrincada rede de interesses em jogo de poder, cujo significado parte de uma série de fotos por ela ampliadas de negativos do Museu da Aeronáutica, de São Paulo, expostas na mostra Panorama 2001, cujos desdobramentos estão além daqueles que se mostram visíveis ao público. Ou seja, seu trabalho alcança outras dimensões do que aquelas de empatia ou aversão imediata entre público e obra, que tende a criar um certo acomodamento onde a questão estética passa a ter um valor de gosto pessoal porque ninguém mais consegue pensar. Como já diziam os Titãs lá atrás: é que a televisão me deixou burro, muito burro demais.
Esse tipo de poética faz parte do dia-a-dia de certos artistas que buscam, cada vez mais, arte e vida como matérias possíveis de se tornarem permeáveis uma na outra. Ricardo Basbaum é artista, escreve sobre arte, dirige a revista Item, o espaço Agora de arte, faz curadorias, ensina na universidade e está conectado o tempo todo com esse tipo de criação. Ou seja, destas relações em que as atitudes de contaminação, de hibridização de um campo do conhecimento em outro roubam para a arte um sentido que ultrapassa sua visão formal. Não é à toa que seu projeto de pesquisa foi denominado de NBP - Novas Bases de Personalidade. Diferente da anestesia geral, tal manifestação é obra pensada e faz pensar, também.
Há muitas pessoas, hoje em dia, trabalhando em diversas áreas a questão da troca entre os campos de conhecimento. Edson Barrus com o seu projeto cão mulato, se utiliza da genética como discurso artístico, para enfocar o tema da pureza racial e do próprio conhecimento científico enquanto avalista de uma ordem que tem na indiferenciação seu modus operandi. A apresentação de suas pesquisas é feitas de modo a mostrar no espaço museológico a elaboração do cão mulato. São slides, bulas, computadores ligados à internet, faxes, telefones, etc.. Talvez de difícil compreensão para quem ainda vê a arte como ciência do belo, mas talvez até mais simples, para uma dona de casa que vive de frente à televisão - com a roupa impregnada de gordura de cozinha e o corpo de desejos - e que não tem nenhuma idéia formada sobre o que é ou não arte.
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