Atitudes
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de maio de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha 2 
Diz-se que uma pessoa tem atitude, quando esta é decidida em relação a algo que defende e acredita o tempo todo. Se preciso, quando preciso, pode-se contar com a pessoa, ou melhor, antes disto, ela já vai estar aonde for para mostrar sua posição frente às questões de seu interesse. Tomar uma atitude é diferente de ter atitude. Alguém tomado por uma atitude é diferente de alguém que toma uma atitude, porque para aquela, este comportamento é inerente à sua razão de viver, não dependendo das circunstâncias para se movimentar nesta ou naquela direção.
Assim, quando uma pessoa deixa de pensar nela própria para defender uma causa, para se posicionar em favor de um modo de vida diferente do senso comum, que se comporta do mesmo modo em sua vida privada quanto pública, nós todos, então, não ficamos indiferentes a este fato, e, mesmo sem entender direito, ou concordar com seu modo de ser, admiramos ou respeitamos tal indivíduo, que sacrifica o cotidiano planejado do dia-a-dia, para viver motivado por uma idéia, uma luta coletiva, a coisas que podem parecer utópicas aos olhos dos incrédulos, mas para ele é totalmente factível.
Talvez os heróis sejam da mesma linhagem dos deuses, semideuses e santos, porque vivem segundo suas próprias ideologias, verdades e crenças. Como dizia o dramaturgo alemão Bertold Brecht: ...há homens que lutam por toda a vida e estes são os imprescindíveis. É, de outra forma, o que também afirma a artista carioca Lygia Clark, quando disse que todo homem precisa viver seu próprio mito.
Não se trata de endeusar uma pessoa em detrimento de outras, mas quando se diz que todas as pessoas podem viver seu próprio destino, o herói, o santo, o mito, o semideus, o que se quer dizer é que esta condição está ao alcance de todos. Claro que tal afirmativa não exclui a cruz, mas este é o preço da liberdade!
Quando nos indagamos como é que um ser como Arthur Bispo do Rosario pôde viver 50 anos preso em um hospício, isolado do mundo e mesmo assim ter criado uma obra tão contundente quanto delicada, dormindo quatro horas por noite, porque tinha que completar sua missão na Terra, ou Jardelina da Silva, que se veste todos os dias com roupas que ela mesmo costura, para tacar o mundo pra frente, então nos damos conta como a nossa verdade é fraca, opaca e embaçada diante dessas pessoas consideradas loucas.
Não foi de louco, charlatão e messiânico que Joseph Beuys foi acusado? O artista alemão que sustentou que entre arte e vida não havia diferença e que toda atitude humana pode ser considerada arte, se houver consciência para tanto, não escapou da acusação, inclusive, de seus próprios conterrâneos. E, mesmo hoje, sua arte ainda causa estranheza a muitos cérebros bem pensantes da arte no mundo. Seu crime: ter afirmado que todo homem é um artista.
Sim, os artistas dos anos 60 e 70 definitivamente abriram um caminho onde a relação entre arte e vida se tornaram tensionadas demais para que os ignorássemos. Vários, por opção, deixaram inclusive de serem artistas, afinal, viver é a grande arte. Mas para aqueles que trouxeram a vida e o cotidiano para arte processo este originário do início do século 20 , não só a arte mudou, mas todos os que se esforçaram por compreender seu processo, também se transformaram.
Um desses artistas foi Yves Klein, artista do grupo dos neuveaux realistes, do início dos anos 60, da França, que não se poupou de pensar e viver a vida como uma experiência estética. Textos, documentários, depoimentos e toda a parte visual de sua diversificada obra faziam parte da atitude de ser uma coisa única enquanto homem e artista. Da cor azul que inventou, dando-lhe seu próprio nome, às performances que fazia usando modelos como pincel para marcar a superfície da tela de pintura, demonstrado que o fazer não vale nada sem o processo criativo. De que a arte não está só no produto final que o espectador contempla, que o marchand vende, que o colecionador compra. Enfim, que o importante é demonstrar atitude diante da vida.
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