Aterrando em São Miguel
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domingo, 03 de agosto de 1997
Jacques da Costa Carvalho Agência Estado 
ReproduçãoSemelhança com as mineiras Ouro Preto, Diamantina e São João del Rey salta aos olhosDe Lisboa para Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, o vôo demora duas horas e meia. Da janela do avião, o que se vê é um conjunto de casinhas esbranquiçadas. A sensação de aterrar (como os portugueses dizem aterrissar) ali é comparável à de descer em um porta-aviões. Não é por acaso que as ilhas são chamadas de Porta-Avião do Atlântico. As casinhas vistas do alto, de perto são solares de dois ou três andares, com janelas amplas e sacadas. A semelhança com as mineiras Ouro Preto, Diamantina e São João del Rey salta aos olhos. Ou com a fluminense Paraty, por ser uma cidade à beira-mar.
As ruas de Ponta Delgada são limpas e estreitas. Algumas delas, como a Manuel da Ponte, leva o proprietário de um restaurante a anunciar: Restaurante Corisco: difícil de estacionar, bom de saborear. Todos os caminhos de Ponta Delgada, como os das outras ilhas, levam ao mar. E Ponta - a maior cidade do arquipélago - se debruça sobre o oceano (ou seria o inverso?).
Os micaelenses, como são chamados os nascidos na ilha, via de regra são atenciosos, simpáticos e falam um português cantado. As águas que circundam a ilha são límpidas e bravas, bordadas por uma orla de areia escura.
Sim, o território é vulcânico, e em alguns lugares a atividade sísmica não é uma marca do passado. Na porta dos elevadores dos hotéis e centros comerciais, há sempre um aviso: Não use em caso de incêndio ou tremor. A bem da verdade, a Ilha de São Miguel é um conjunto de vulcões, a maior parte deles extinta. No Vale das Furnas, as fumarolas (fumaças) denunciam a atividade tectônica pelos ares. O cenário lembra o que se supõe ser o inferno: cheiro de enxofre e poças dágua e de argila borbulhantes (mais de 120º C), chamadas de caldeiras. A visão demoníaca só não é maior porque o verde impera. Uma ilha de Deus e do diabo, pois. O primeiro coloca água na fervura, criando lagoas coloridas e translúcidas, o segundo faz a terra cuspir fogo.
Florida e fervente Na primavera e no verão, hortênsias e azaléias pontilham os canteiros desse jardim florido e fervente. Os desprevenidos que se cuidem. Atenta à curiosidade dos turistas, Maria Fernanda Bettencourt, uma guia local, adverte: Não convém colocar a mão nas caldeiras fumegantes. Pode sair a pele.
Outras referências à atividade vulcânica podem ser vistas em toda a ilha. Na Lagoa do Fogo, em Sete Cidades onde dois lagos, um verde e outro azul, se formaram após um cataclisma e nas freguesias de Vila Franca do Campo e Ribeira Grande, ambas destruídas em séculos passados por diferentes erupções.
Se a presença dos vulcões é uma ameaça às vezes nada silenciosa (basta ouvir o borbulhar das caldeiras), também é economia na hora de cozinhar. No Vale das Furnas, come-se, literalmente, o fruto da terra. É o tal do cozido de Furnas. Depois de colocar todos os ingredientes (chouriço, repolho, carne, batata, couve, cenoura e inhame) em uma panela sem água, esta é fechada e enterrada. Após algumas horas de quatro a cinco de cozimento pelo calor do solo, é só retirar o caldeirão e servir.
Comilão herege Mas nem tudo queima e ferve no Vale das Furnas. A região também produz água mineral, a da Serra do Trigo. É 100% pura e levemente gasosa. Ideal para matar a sede ou acompanhar refeições. Nesse aspecto, a ementa (menu) dos restaurantes é, no mínimo, provocante. Deixe a dieta de lado e abra a boca. Saboreie peixes, lagostas, mariscos, vitelas de carneiro, pato e carne, muita carne. Comida farta com sabor caseiro e barata. Com US$ 10, dá para comer e beber como um padre. Na hora da sobremesa, peça ananás (abacaxis menores cultivados em estufas) ou uma taça de natas do céu. Depois de saborear essa mistura de claras e creme de gemas, a gente sai do restaurante com a sensação de levar um pedaço do paraíso no estômago.
Aliás, de santos os chamados doces conventuais não têm nada. São a tentação materializada. Nos idos que nem o Vaticano se lembra mais, era comum as freiras utilizarem a clara para engomar véus. Com as gemas que sobravam, faziam pastéis e mais pastéis (doces e mais doces). Daí surgiram os de Santa Clara, de Belém, os fios dovos, as natas do céu, a trouxa dovos, o toucinho do céu, os ovos moles... haja imaginação! Diante dessas iguarias canonizadas pela gula, a única atitude permitida ao comilão herege é saborear. E de joelhos, pedindo a Deus para a taxa de colesterol não subir ainda mais.


