São Paulo, 08 (AE) - Ela já foi chamada de primeira-dama
de rainha da chanchada. Não era. A rainha da chanchada era Eliana. Zezé Macedo foi sempre a empregadinha da chanchada - ou a "criadinha do Brasil", como ela própria se definiu certa vez. Assim, poderá ser vista amanhã (09) à noite na Cultura, no filme "Rio Fantasia", de Watson Macedo, ao lado de Eliana e John Herbert. O filme já estava programado há dias. Fica sendo agora uma homenagem à atriz que morreu hoje, no Rio, na Clínica Bambina (Botafogo), às 2h55, aos 85 anos. Estava internada desde o dia 26 de agosto, depois de ter sofrido um derrame cerebral. Seu corpo foi velado na capela 1 do Cemitério São João Batista e deverá ser cremado amanhã, às 8h30, no Cemitério do Caju.
Zezé Macedo virou um ícone da chanchada, com Oscarito, Grande Otelo, Eliana, Zé Trindade, Violeta Ferraz, José Lewgoy e Wilson Grey. Todos reinavam nas comédias entremeadas de números musicais (carnavalescos, principalmente), que fizeram a glória da Atlântida. Isto foi nos anos 50, mas para o telespectador dos 90 Zezé é mais conhecida, com certeza como a dona Bela no programa "Zorra Total", da Rede Globo. Dela, disse Oscarito que era "a maior comediante do Brasil". Não há por que duvidar. Coma - Zezé estava em coma e respirava com auxílio de aparelhos. Segundo os médicos, tinha um aneurisma cerebral, que se rompeu. Os médicos Hélio Assis Pereira e Flávio Freinkel iriam operá-la, mas, segundo a família, desistiram, devido ao delicado estado de saúde da comediante e optaram pela realização de duas pulsões (drenagem de coágulo). "Ela estava sofrendo muito e não aguentaria uma cirurgia", disse Hilza DelCima, prima da atriz.
A comediante era casada havia 38 anos com o ator Victor Zambito. "Era uma mulher muito forte, nunca teve nem dor de cabeça", afirmou Zambito. Conhecida pelos personagens cômicos que interpretava desde os tempos do rádio, Maria José Macedo nasceu na cidade de Capivari, no interior do Rio, hoje Silva Jardim. Estreou no teatro aos 4 anos, na peça "As Pastorinhas". Fazia a protagonista e, como não sabia ler, decorava os textos que o padrasto lia para ela. Zezé sempre recebeu o incentivo da família.
Não foi como atriz, mas poetisa, que ela estreou no rádio. Contratada para dizer seus poemas num programa dominical, trabalhou durante três anos como secretária na Rádio Tamoyo. Contratada pela Rádio Tupi (participou de programas também na TV Tupi), prosseguia com suas poesias radiofonizadas até que entrou no programa "Lar, Doce Lar", substituindo a atriz que fazia a doméstica. Virou a criadinha do Brasil.
Para quem vivia de fazer rir, sua vida foi marcada por uma tragédia. Quando ela se casou (aos 15 anos), o filho, que ainda era bebê, caiu do colo da sogra da atriz, fraturou o crânio e morreu. Zezé chegou a pensar em desistir da profissão, fez uma promessa de que se o filho sobrevivesse, jamais voltaria a pisar no palco. Terminou por separar-se do marido e nunca mais teve filhos. Homenageada pelo Festival de Natal, em março do ano passado, definiu-se como "uma operária da minha profissão". Uma profissão que ela levava a sério, embora seu ofício fosse fazer rir, levando alegria a milhões de espectadores.
O mito esculpido no cinema tinha características bem específicas: Zezé era careteira, falava com uma voz que soava engraçada para o público e em geral fazia a tonta. Apesar de suas trapalhadas, sempre conseguia ajudar a mocinha (Eliana) na hora do perigo. Como Wilson Grey, era uma coadjuvante que costumava roubar a cena dos astros e estrelas. Manteve as características, desde o tipo físico até a habilidade para destacar-se, como dona Bela, no "Zorra Total".
Seu sonho, que ela nunca concretizou, era interpretar um grande papel dramático. Dos mais de cem filmes de que participou (foram exatamente 108) preferia "De Vento em Popa", de Carlos Manga, com Oscarito. Outro preferido era "Este Milhão É Meu", de novo com Oscarito. Mas também era divertido "O Petróleo É Nosso", sua estréia na Atlântida, pela mão de Watson Macedo. E não se pode esquecer de "As Sete Vampiras", que ela fez com o rei do terrir, o terror permeado de riso, Ivan Cardoso.
Poesia - São quatro os seus livros de poesia: o primeiro, "Coração Profano", é de 1954. Vieram depois "Meu Breviário", "Uma Estrela Caiu" e "A Menina do Gato". O último, editado há dois anos pelo Sindicato dos Artistas do Rio, além de passagens sobre sua vida, principalmente da infância, traz poemas que confirmam: a chanchadeira sempre foi uma mulher emotiva. (Com Sucursal Rio)

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