Projeto de lei, recém-aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, levanta polêmica ao estabelecer punições para o abuso de expressões estrangeiras na língua portuguesa
Eles estão em todos os lugares. Se você procurar, vai encontrar alguns espalhados pelas páginas deste jornal, talvez até grafados com destaque em títulos de reportagens.
Os estrangeirismos, enfim, parecem inevitáveis. Se há 100 anos o francês era o idioma que mais emprestava palavras ao vocabulário coloquial dos brasileiros, hoje em dia o inglês monopoliza a invasão linguística.
Num levantamento provisório de anglicismos, podemos citar entre os recordistas em uso expressões como shopping, disk, cards, self-service, lobby, diet, outdoor, light, look, blitz, stress, walkman, delivery, sex-appeal, office-boy, know-how, happy hour, teen, test-drive, expert, ranking, fast-food, cult, top model, hobby, best-seller, marketing, cool, flat, high tech, download, revival, play-off, layout, underground, design, up-grade, piercing, workaholic e talk show.
É uma lista interminável. De tão incorporado que está, o ‘‘portuglês’’ virou a linguagem oficial das pessoas que trabalham em informática ou no mundo das finanças e dos altos negócios. Não são todos, porém, que aceitam esse fenômeno com naturalidade. Um projeto do deputado Aldo Rebelo (PC do B – SP) acaba de ser aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal estabelecendo punições para o abuso de expressões estrangeiras no país.
Em sua cruzada para proteger o idioma de Camões e Machado de Assis, o deputado ataca o que chama de ‘‘práticas abusivas, enganosas e danosas ao patrimônio cultural brasileiro’’. O texto, que agora está no Senado, traz entre seus artigos um item que prevê a substituição em 90 dias de termos importados por palavras equivalentes em português. Nos casos em que não existir expressão similar, caberá à Academia Brasileira de Letras estudar o aportuguesamento dessas palavras ou o neologismo próprio que venha a ser criado.
O presidente da ABL, Tarcísio Padilha, considera ‘‘a iniciativa louvável’’ por trazer à tona ‘‘uma discussão oportuna’’. ‘‘É patente o descalabro a que a a língua portuguesa está exposta’’ – lamenta. Segundo ele, nosso idioma tem sofrido arranhões de todos os lados seja nas falas, nos meios de comunicação ou através – e principalmente – da música. Em outros domínios, Padilha flagra excessos de terminologia alienígena. Os economistas, por exemplo, teriam sido seduzidos pelo pedantismo passando a usar desnecessariamente vocábulos em inglês.
Ainda de acordo com ele, as casas comerciais também estariam exagerando no emprego de anglicismos. Mas embora concorde com as boas intenções do projeto de lei, o dono do fardão mais poderoso da ABL rechaça qualquer tese xenófoba a respeito de influências idiomáticas. ‘‘É preciso ter bom senso’’ – salienta. ‘‘Nenhuma língua é pura. As línguas são dinâmicas. A língua é o que seus falantes fazem dela. A expressão ‘check-in’, por exemplo, é utilizada nos aeroportos do mundo inteiro, assim como ‘adagio’ e todas as demais expressões italianas que se referem às sinfonias. O mesmo se pode dizer de algumas palavras tomadas da culinária francesa’’ – acrescenta.
De qualquer forma, se for aprovado, o projeto vai trazer dores de cabeça para muitos cidadãos. Médicos terão que esquecer a palavra ‘‘stress’’ trocando-a por estafa, sob o risco de cometerem um atentado ao idioma pátrio. Ao mesmo perigo estarão sujeitos estilistas e todos os que gravitam no mundo da moda ao usarem a expressão ‘‘fashion’’. E que sanção sofrerá um artista ao anunciar a realização de um ‘‘workshop’’ durante um festival de teatro ou de música?
A polêmica, enfim, está no ar. ‘‘Esse político quer aparecer, essa lei é uma besteira. Estamos diante de mais uma patriotada’’ – protesta Joaquim Carvalho da Silva, professor de Literatura Portuguesa e criador do disk-gramática na Universidade Estadual de Londrina. Segundo ele, já houve tentativas anteriores no Congresso para barrar a infiltração do inglês em nossa língua, mas todas foram frustradas.
‘‘Os idiomas se enriquecem absorvendo elementos uns dos outros’’ – argumenta. ‘‘Os próprios americanos já adotaram termos da língua portuguesa. No Brasil, sempre ocorreram empréstimos. Se houver uma proibição oficial de estrangeirismos, não vai sobrar nada de nosso idioma. As palavras são criadas e descartadas com seu uso. Algumas surgem e desaparecem, outras permanecem e são incorporadas ao dicionário. Não será uma lei que vai regular o que as pessoas escrevem e falam’’.
O coordenador editorial do Novo Aurélio Século XXI, Paulo Geiger, vai na mesma linha de raciocínio. ‘‘Essa lei é estranha e demagógica’’ – observa. ‘‘Claro que existem abusos como usar ‘delivery’ em vez de entrega ou ‘sale’ em vez de liquidação. Mas, por outro lado, nosso próprio idioma se fez incorporando termos tais como futebol, boate, abajur e tantos outros’’. Ele lembra que muitas expressões tornaram-se correntes, sendo difícil resgatar suas correspondentes nativas.
De sopetão, ele exemplifica citando as palavras ‘‘adotadas’’ baby-sitter, background, set, approach, game e apart-hotel. ‘‘O que essa lei quer é probir, atacar o problema através da coerção. Não acho que seja a solução. A preservação da língua se faz pela educação e pela divulgação de bons textos, dos dicionários e das grandes obras literárias’’ – conclui.
A celeuma só começou. No dia 18 de maio, o deputado Aldo Rebelo estará em Londrina para debater seu projeto de lei na UEL.

mockup