'ASTERIX' CHEGA AO BRASIL
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sexta-feira, 12 de maio de 2000
Jotabê Medeiros Agência Estado 
Por que estamos decepcionados? Por que não rimos, e os efeitos especiais dão a impressão de algo já muito visto? Esse era o questionamento do jornal Le Parisien quando da estréia em Paris de Asterix e Obelix contra César. O Le Parisien não estava sozinho na frustração: Libération, Le Monde, Figaro e France Soir assinaram embaixo.
Foi difícil para os franceses, mas eles tiveram de admitir que a maior produção do cinema nacional - US$ 40 milhões de custo, 60 atores, 1,5 mil extras, 21 semanas de filmagem - não era a sétima maravilha do mundo. Isso não impediu, no entanto, que se tornasse um sucesso comercial na Europa - e que chega ao Brasil hoje (veja programação de cinema na página 5), após uma série de adiamentos e um ano após sua estréia francesa. Asterix já foi visto por 24 milhões de pessoas, somente na Europa, disse o diretor do filme, Claude Zidi, em entrevista, por telefone, de Paris, na semana passada. E não há críticos de cinema na França, que eu saiba alfineta.
Asterix teve um mérito inegável: o de colocar em evidência um herói que é notável metáfora do nacionalismo francês e de sua cruzada contra a padronização cultural. Resistência, desordem, discussões por minúcias: a França, no espelho de Asterix, tem as características de uma tribo que quer manter-se etnicamente pura e livre, dizia a resenha do La Croix, uma das poucas vozes destoantes.
Dirigido por Zidi, produzido por Claude Berri e com Gerard Depardieu como Obelix e Christian Clavier como Asterix, o filme tenta materializar o mais tenaz herói dos franceses, até então um herói de papel (e dá-lhe papel: empilhados, os exemplares de Asterix publicados desde 1959 são 7 mil vezes maiores que a Torre Eiffel). O gibi no qual se baseia o filme de Claude Zidi é um caso de feliz coincidência de talentos e intuições. Criado por Albert Uderzo e René Goscinny num apartamento em Paris em agosto de 1959, Asterix é um mito. Já vendeu 280 milhões de cópias em 77 países e 57 línguas diferentes.
Depardieu tornou-se a perfeita encarnação do gordo entregador de menires Obelix. O druida Panoramix (Miraculix para os alemães) está impagável. O bardo Chatotorix não poderia parecer mais maçante com sua harpa. E até os romanos estão mais loucos do que nunca - pediram até o reforço de Roberto Begnini, que assume a persona do centurião Detritus.
Tudo foi feito para que o símbolo da resistência francesa à ocupação estrangeira fosse retratado fielmente da maneira que sempre apareceu em bande dessinée (como os franceses chamam os quadrinhos). Tudo é superlativo em Asterix: a aldeia gaulesa foi recriada num estúdio de 4 mil metros quadrados, o maior da Europa. Cerca de 250 pessoas trabalharam no filme durante 5 mil horas.
Nos estúdios Bavaria, de Munique, criaram o circo romano da produção, do qual participaram 1,5 mil figurantes e 500 animais (cavalos, galinhas, patos, crocodilos, cobras). A trilha sonora foi gravada pela Orquestra Sinfônica de Londres. O filme, no entanto, parece ter traído a maior característica do seu partis pris gaulês: a capacidade de vencer com uma estratégia guerrilheira, comendo pelas beiradas, sutilmente. Apoiou-se no gigantismo do dinheiro e dos efeitos especiais. Após um começo bastante trabalhoso, no qual se assiste a um desfile não muito estimulante, e tampouco palpitante, de episódios sacados de diferentes volumes da saga, o filme aborrece um pouco e preocupa. Mas a superprodução encontra sua porta de saída nos efeitos especiais à maneira americana, que são a verdadeira poção mágica da produção, diz a resenha do Le Monde.


