Por que estamos decepcionados? Por que não rimos, e os efeitos especiais dão a impressão de algo já muito visto? Esse era o questionamento do jornal ‘‘Le Parisien’’ quando da estréia em Paris de ‘‘Asterix e Obelix contra César’’. O ‘‘Le Parisien’’ não estava sozinho na frustração: ‘‘Libération’’, ‘‘Le Monde’’, ‘‘Figaro’’ e ‘‘France Soir’’ assinaram embaixo.
Foi difícil para os franceses, mas eles tiveram de admitir que a maior produção do cinema nacional - US$ 40 milhões de custo, 60 atores, 1,5 mil extras, 21 semanas de filmagem - não era a sétima maravilha do mundo. Isso não impediu, no entanto, que se tornasse um sucesso comercial na Europa - e que chega ao Brasil hoje (veja programação de cinema na página 5), após uma série de adiamentos e um ano após sua estréia francesa. ‘‘Asterix já foi visto por 24 milhões de pessoas, somente na Europa’’, disse o diretor do filme, Claude Zidi, em entrevista, por telefone, de Paris, na semana passada. ‘‘E não há críticos de cinema na França, que eu saiba’’ alfineta.
‘‘Asterix’’ teve um mérito inegável: o de colocar em evidência um herói que é notável metáfora do nacionalismo francês e de sua cruzada contra a padronização cultural. ‘‘Resistência, desordem, discussões por minúcias: a França, no espelho de ‘Asterix’, tem as características de uma tribo que quer manter-se etnicamente pura e livre’’, dizia a resenha do ‘‘La Croix’’, uma das poucas vozes destoantes.
Dirigido por Zidi, produzido por Claude Berri e com Gerard Depardieu como Obelix e Christian Clavier como Asterix, o filme tenta materializar o mais tenaz herói dos franceses, até então um herói de papel (e dá-lhe papel: empilhados, os exemplares de ‘‘Asterix’’ publicados desde 1959 são 7 mil vezes maiores que a Torre Eiffel). O gibi no qual se baseia o filme de Claude Zidi é um caso de feliz coincidência de talentos e intuições. Criado por Albert Uderzo e René Goscinny num apartamento em Paris em agosto de 1959, ‘‘Asterix’’ é um mito. Já vendeu 280 milhões de cópias em 77 países e 57 línguas diferentes.
Depardieu tornou-se a perfeita encarnação do gordo entregador de menires Obelix. O druida Panoramix (Miraculix para os alemães) está impagável. O bardo Chatotorix não poderia parecer mais maçante com sua harpa. E até os romanos estão mais loucos do que nunca - pediram até o reforço de Roberto Begnini, que assume a persona do centurião Detritus.
Tudo foi feito para que o símbolo da resistência francesa à ocupação estrangeira fosse retratado fielmente da maneira que sempre apareceu em bande dessinée (como os franceses chamam os quadrinhos). Tudo é superlativo em ‘‘Asterix’’: a aldeia gaulesa foi recriada num estúdio de 4 mil metros quadrados, o maior da Europa. Cerca de 250 pessoas trabalharam no filme durante 5 mil horas.
Nos estúdios Bavaria, de Munique, criaram o circo romano da produção, do qual participaram 1,5 mil figurantes e 500 animais (cavalos, galinhas, patos, crocodilos, cobras). A trilha sonora foi gravada pela Orquestra Sinfônica de Londres. O filme, no entanto, parece ter traído a maior característica do seu partis pris gaulês: a capacidade de vencer com uma estratégia guerrilheira, comendo pelas beiradas, sutilmente. Apoiou-se no gigantismo do dinheiro e dos efeitos especiais. ‘‘Após um começo bastante trabalhoso, no qual se assiste a um desfile não muito estimulante, e tampouco palpitante, de episódios sacados de diferentes volumes da saga, o filme aborrece um pouco e preocupa. Mas a superprodução encontra sua porta de saída nos efeitos especiais à maneira americana, que são a verdadeira poção mágica da produção’’, diz a resenha do ‘‘Le Monde’’.

mockup