Não há como negar. O assunto é delicado e poucas vezes sabemos lidar de forma natural com ele. A morte tem cara de tristeza, de lágrimas, de perda e nunca gostamos de perder, não é mesmo? A explicação que os pais nos dão também nem sempre nos convence. ''Como pode alguém que está 'dormindo' ser colocado debaixo da terra?'', muitas vezes indagam as crianças, que depois dessa explicação acabam ficando com medo de dormir e serem também colocadas debaixo da terra. Para quebrar esse tabu, a professora Regina Aparecida dos Santos, da Escola Reino Encantado, decidiu trabalhar a morte como tema transversal com seus alunos da 4 série. ''A demanda surgiu das próprias crianças. Elas estavam impressionadas com o caso da Terry Schiavo, nos Estados Unidos, em que estava se decidindo sobre a continuidade ou não da sua vida. Questionavam sobre o assunto e percebi que era o momento ideal para o debate'', comentou a professora.
Com olhinhos atentos, as 15 crianças que participaram dessa temática não se intimidaram em contar diversas situações que se deparararam com a morte. Tem o pai de uma coleguinha que morreu no dia do seu aniversário, o avô de outra que de tanto beber e fumar está morrendo, do vizinho que foi morto a tiros por um colega, sem falar dos bichinhos de estimação que normalmente são as primeiras experiências de morte que as crianças vivenciam. Perder um cachorrinho, um gato, um periquito e uma tartaruga também causa dor, explicam as crianças.
Como forma de embasar esse trabalho, eles leram diversas reportagens da Folha de Londrina sobre o caso de Terry Schiavo, estudaram o texto do livro bíblico Eclesiastes, que fala primordialmente sobre a brevidade da vida e que há tempo para cada coisa e debateram com os colegas sobre o assunto. Para discutir o assunto, os alunos também tiveram que perceber que o respeito tem que ser a linha mestra de todos, já que na sala há seguidores de várias religiões. ''Sempre conversávamos que por trás de uma suposta diferença religiosa ou até de cor há sempre um ser humano que merece respeito e que nunca devemos nos esquecer disso. Precisamos humanizar as nossas relações'', ressaltou a professora.
Para o aluno Matheus Gonçalves Cavassin, 9 anos, depois que a gente morre, há um renascimento da vida em outro lugar. Seu colega Mateus Cruz Capello, também de 9 anos, disse que ficamos triste com a morte porque na verdade não sabemos muito bem o que vai acontecer. ''É um mistério'', comentou. Já Guilherme Rogério Gonçalves, 9 anos, afirmou que acredita que ''deve haver um céu e um inferno, mas como Deus é muito bondoso, é quase certo que ele vai perdoar todas as coisas ruins que fizemos e todos nós iremos para o céu'', alegou.
Apesar das divergências de opiniões, ''todos nós estamos mais tranquilos para falar sobre a morte depois desse trabalho. Não gostamos de tabus, parece que alguma coisa tem que ser escondida, e isso não é legal'', destacou a aluna Vanessa Palma Favaro, 9 anos.
Tendo o caso de Terry Schiavo como referência, até a questão da alimentação passou a ser refletida por eles. Como ela não podia se alimentar e nem ao menos beber, eles perceberam a importância dessas coisas e isso refletiu no comportamento deles na hora de comer. Passaram a valorizar mais os alimentos e são menos restritivos ao que querem comer'', acrescentou Regina.
Quando questionados se gostariam de poder decidir sobre a forma da própria morte, eles foram enfáticos: ''queremos morrer velhinhos, da forma como Deus achar melhor, mesmo que seja com dor. Não acreditamos que temos o direito de decidir sobre isso''.
Como forma de dividir com os colegas o aprendizado que tiveram, as crianças tiveram a idéia de produzir vários poemas englobando os temas da morte e da vida, que foram apresentados na forma de jogral. ''Falando da morte, a grande lição que tivemos foi a da valorização da vida, principalmente porque somos crianças e temos muito o que viver'', afirmaram, em coro.


POEMAS


Versos criados pelos alunos da 4 série a partir do debate em sala-de-aula

O direito da vida

Se Deus nos deu o direito à vida,
por que a tentam tirar?

Vamos ser conscientes,
agir como gente.

Não tire a vida
da nossa gente.

(João Henrique A. Godoy)


A vida a ser vivida

A vida de herói
A vida de amor
A vida que destrói
A vida de pavor

A vida que pedi a Deus
A vida que pedi e não consegui
A vida que vivi
A vida que morri

A vida que construí
A vida que destruí
Mas a vida que consegui
É a vida que pedi

(Fabiane Martins Mendes)

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