O corpo do ator é uma obra em constante transformação. A cada personagem, seu visual é reformulado para se adequar a um novo papel. Entre as mudanças propostas pela caracterização, talvez as modificações capilares sejam as mais comuns. Cortes, pinturas discretas ou extravagantes e "megahair" são algumas das possibilidades que os artistas vislumbram ao abraçar um projeto.
No entanto, apesar da transformação estética ser essencial, as madeixas de um ator não devem se sobressair à sua atuação, como aconteceu, recentemente, em "Amor à Vida", quando Marina Ruy Barbosa viu sua ingênua Nicole perder espaço para sua decisão de não raspar a cabeça. Após o contratempo, Walcyr Carrasco, o autor do folhetim, resolveu mudar o destino da órfã milionária. E seu final feliz foi trocado por uma morte trágica.
Para completar, a atriz Sophia Abrahão foi chamada para "substituí-la" na trama, assumindo tanto seu lugar no triângulo amoroso com Thales e Leila, de Ricardo Tozzi e Fernanda Machado, quanto seu visual ruivo. "O cabelo não é o mais importante, a personagem tem uma história bonita e estou vivendo ela intensamente", defende Marina.
A decisão de raspar a cabeça por um personagem pode não mudar a carreira de um ator, mas, definitivamente, lhe confere prestígio no meio artístico. Para Carolina Dieckmann, essa escolha foi um divisor de águas em sua trajetória. Apesar de ter estreado em 1993, na minissérie "Sex Appeal", foi na novela "Laços de Família", de 2000, que a atriz ganhou destaque.
No mesmo ano, Daniela Escobar também passou por uma grande transformação por uma personagem. Além de perder dez quilos para dar vida à judia Bella da minissérie "Aquarela do Brasil", ela teve de aparar sua cabeleira no estilo mais conhecido como "joãozinho". A produção não teve um grande retorno de público, mas o papel ficou marcado na carreira da atriz. "Depois da pesquisa que fiz e dos documentários sobre o Holocausto que vi, achei que seria um desrespeito fazer uma personagem fugida de um campo de concentração sem essa transformação", ressalta Daniela.
Entretanto, nem os cortes de cabelo mais extremos são garantia de destaque na teledramaturgia. Quando Larissa Maciel foi convidada para dar vida à egípcia Sati, na minissérie bíblica "José do Egito", não foi exigido dela nenhum tipo de transformação. Como no Egito antigo tanto os homens quanto as mulheres exibiam cabeças raspadas, a ideia da produção era usar próteses em todo o elenco para simular suas "carecas". Mas a atriz decidiu ir mais longe e optou por se desfazer totalmente da cabeleira. "Gosto de me entregar aos papéis que encarno. Fazer tudo de verdade. Virei atriz para viver outras vidas, se interpreto uma mulher que se acha linda careca, é assim que eu vou sentir a personagem", argumenta.
Por mais que seja menos radical que um corte, a coloração capilar também modifica bastante o visual de um ator. Em "Joia Rara", próxima novela das seis, grande parte do elenco feminino aparecerá com os cabelos platinados. A caracterização é uma referência à década de 1940, onde o tom exageradamente claro era moda entre as mulheres. Para Mariana Ximenes, Giovanna Ewbank e Letícia Spiller, a cor platinada tem ainda a função de ressaltar a sensualidade de suas personagens. "É o cabelo mais claro que já tive. No início, dei uma estranhada. Mas agora já me acostumei com o novo visual", revela Letícia.
Muito usado em produções de época ou personagens caricatos, o platinado pode ser uma opção perigosa para a saúde do cabelo. Por ser um tom extremo, requer cuidados especiais, como hidratação e manutenção constante. Em "Balacobaco", da Record, Simone Spoladore apareceu louríssima na pele da espevitada Violeta. Mas o "look" platinado durou até meados da novela, quando o cabelo da atriz não resistiu e quebrou com o excesso de química. "Depois que meu cabelo caiu, a Gisele Joras (autora) precisou adaptar a trama ao meu contratempo. Minha personagem começou a usar perucas e ganhou cenas engraçadíssimas", relembra, aos risos, a atriz.

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