ASSUMIDAMENTE WOLVERINIANOS
Francelino França
De Londrina
Uns aprovam, outros apontam ressalvas. Mas quem acompanhou as aventuras dos X-Men através das histórias em quadrinhos fez questão de ver em alguns casos reverenciar a versão cinematográfica de Wolverine e companhia na luta contra o temível Magneto
Por trás da força dos heróis do filmeX-Men, do diretor Brian Singer, corre um rio turbulento. O comportamento e os poderes de Wolverine, Professor X, Ciclope, Jean Grey, Vampira, Mística e toda a tropa, encontram ressonância nos desejos mais secretos do homem. Em Wolverine, a cicatrização acontece em segundos. Num humano, leva em média catorze dias. O Professor X se comunica telepaticamente. Segundo os cientistas, ninguém ainda documentou poderes extra-sensoriais nesse campo. O nosso pensamento é processado principalmente por substâncias químicas. Como não se projetar neles?
No celulóide, a legião de fiéis pôde finalmente conferir os mutantes mais próximos dos humanos, com a movimentação completa, sem a fragmentação dos quadrinhos. Personagens que habitam o imaginário de leitores nos quatro cantos do mundo, ganham nova dimensão de forma convincente. Nos cinemas, a platéia marca presença sem ruídos, magnetizada pelos efeitos 500 efeitos especiais do filme. Silêncio. Sinal de aprovação.
A hostilidade sobre o ser mutante é uma tática de defesa, o diferente oferece perigo. O trauma do vilão Magneto (Ian McKellen) se deu durante o Holocausto, num campo de concentração. O projeto de Hitler de hegemonia ariana era de mutação da raça humana, tangencia pela não aceitação do diferente. Outro tema abordado no filme se refere à dificuldade de aceitação que passamos em algum momento da vida. Esse é um sentimento comum.
O universo fictício de seres com poderes especiais, frágeis, superdotados, conflitantes, sobreviventes da intolerância, fascina há mais de 20 anos Elena Andrei, professora de Antropologia dos cursos de Artes e História, da Universidade Estadual de Londrina. Elena dispara uma nota 8,9 para a versão X-Men das telas. Apaixonada pelo personagem Wolverine (no filme, interpretado pelo então desconhecido Hugh Jackman), ela psicanalisa a complexa personalidade do anti-herói, apesar de ser apresentado no filme apenas uma faceta. Acho que tenho mais contato com Wolverine do que com alguns amigos de carne e osso, admite Elena Andrei. O encantamento do público com os X-Men foi imediato nos anos 60 e início dos anos 90. Ninguém aguentava mais picada de aranha radioativa.
Wolverine quebra as regras de bom mocismo: fuma, bebe muito e traça todas as mulheres. Soma-se a isso, um escracho bem ao estilo cafajeste, fugindo completamente do padrão americano do insuportável comportamento politicamente correto. Wolverine é poderoso e frágil. Já tentaram se livrar do cara, prossegue. Para a professora, duas figuras do filme deixaram a desejar: Jean Gray (Famke Janssen) destroçada, como também Dentes-de-Sabre (Tyler Mane).
Esse universo dos X-Men não surgiu do nada, segundo as análises de Elena Andrei. Resultou da construção do mundo sobrenatural e tecnológico, que emergiram nos anos 60. Os wolverinistas assumidos aclamam o personagem por representar o mito do guerreiro, descompromissado, autônomo, de extrema eficiência. Além disso, o cara tem constantes crises de consciência. Wolverine vai além do anti-herói. Sua frase predileta: eu sou o melhor no que faço. Só que o que faço não é o mais bonito.
Elena analisa o comportamento do personagem como amante da crueldade, brutal, que insiste numa relação predatória com as mulheres. Sempre rasga o uniforme e ainda por cima dorme nu. Raridade em quadrinhos. Na versão cinematográfica, não aparece sua porção fera, de grande caçador. Amante da arte, ligado à cultura, sofisticado, Wolverine é profundo conhecedor de armas e das artes mágicas. Merecedor de quadrinhos exclusivos. Se Batman é justiceiro, Wolverine é guerreiro, navalhando o maniqueísmo fácil. Elena ainda ressalta a recuperação que Wolverine realizou das múltiplas possibilidades do papel masculino, até então desfacelada.
Outro conhecedor do macrocosmo fictício criado por Stan Lee e Jack Kirby, o estudante e proprietário da BatBanca, Eduardo Baggio Vieira, desde os 15 anos devora esse mundo de ficção científica. A adaptação para as telas criou muita expectativa em Eduardo. Entusiasmado, dá nota 10 para a transposição para as telas. Dá vontade de ir várias vezes ao cinema, revela. Até a violência apresentada na tela correspondeu a dos quadrinhos, garante.
Para o aficcionado, o melhor do filme, sem dúvida, é Wolverine. Esse personagem tem atitudes firmes, ele é muito é decidido, Em meio às centenas de histórias em quadrinhos, Eduardo constata que os X-Men estavam em baixa, com as vendas reduzidas. Agora vai vender, acredita. A edição comemorativa ao lançamento do filme ainda não chegou a Londrina, mas Eduardo Baggio encomendou a revista em São Paulo, para saciar a curiosidade.
Condensar 37 anos de quadrinhos em uma hora e meia, sem dúvida, é tarefa para super-herói. Na concepção de Fernando Lobo, 23 anos, estudante de Física, a versão de Brian Singer pode ser considerada tímida, com nota 7. Alguns personagens são arremedos dos X-Men. Depois do fiasco de Batman 3, o público esperava um filme de nível inferior, argumenta. Nessa versão, segundo Lobo, faltou profundidade.
Colecionador das revistas de X-Men, editadas pela Abril, desde os 10 anos convive com esses personagens. O responsável pela consolidação do universo mutante, Chris Claremont, fez parte da equipe criativa da revista de 1975 a 1992. O número 1 da nova safra, lançado no início dos anos 90, vendeu 8 milhões de exemplares nos EUA. Claremont burilou com maestria os temores internos dos personagens, deixando os poderes em segundo plano. Ele gerou a sensação de família nos X-Men, argumenta. Ganhou leitores fiéis com isso.
Por uma questão mercadológica, pode-se hierarquizar os quadrinhos X-Men num patamar adulto, o desenho animado é dirigido para o público infantil, enquanto o filme está voltado para o público adolescente. Para Fernando Lobo, Wolverine também se sobressaiu no filme, com duas ressalvas: ser interpretado por alguém muito jovem e alto.





