Associação pede volta do single
Home page faz campanha pela entrada no mercado dos CDs com apenas duas faixas, descendentes dos antigos compactos de vinil
Ranulfo Pedreiro
Ritchie escalava as paradas com Menina Veneno e Os Paralamas do Sucesso estreavam com Cinema Mudo. O RPM aparecia com Louras Geladas e Revoluções por Minuto, enquanto Kid Abelha e os Abóboras Selvagens chegavam às FMs com Pintura Íntima e Por Que Não Eu?.
Uma verdadeira avalanche de sucessos invadiu o mercado fonográfico brasileiro no início dos anos 80, marcando o nascimento de uma nova geração da música pop nacional. Toda esta movimentação estava vinculada a um formato de disco que sumiu do mercado com a tecnologia do CD: o compacto de vinil com duas faixas. Responsável pelo lançamento de vários músicos e compositores, o compacto não resistiu, no Brasil, à transformação em CD-Single - ocorrida com sucesso no exterior - e simplesmente desapareceu das lojas.
O compacto já marcava presença na década de 70, tornando-se muito popular na época das discotecas - trazendo sucessos dos Bee Gees ou do Boney M. Sua história remonta às origens da indústria fonográfica, com o disco de acetato de 78 rotações, que só permitia cerca de 4 minutos de gravação de cada lado.
Um de seus últimos estertores foi o lançamento do projeto Chega de Mágoa, uma espécie de USA for Africa tupiniquim, que reuniu vários cantores - de Tim Maia a MPB4 - para arrecadar fundos e combater os prejuízos da seca no Nordeste.
Mas há quem reclame da falta de uma opção barata e popular representada pelo compacto. Rafael Silva Netto, um consumidor carioca, montou uma home page na Internet para incentivar a volta do compacto em formato digital. Com um site informativo na Internet, a Associação CD-Single, fundada por Netto, vem ganhando apoio de internautas como o produtor Pena Schmidt e colhendo assinaturas para um abaixo-assinado que será enviado às gravadoras.
Não sou ligado à música nem ao mercado de discos. Sou apenas um consumidor bem informado. Eu lembro bem dos compactos de vinil, que minha geração cresceu ouvindo, e que foram estranhamente banidos do mercado brasileiro, comenta Netto, em entrevista feita por e-mail.
Enquanto no Brasil o formato desapareceu, no exterior se propagou como CD-Single: Graças à Internet, pude conhecer melhor este tipo de disco e como ele está inserido no mercado mundial. Eu estava ficando cada vez mais chateado porque ouvia músicas no rádio em versões que não eram lançadas em CD. Alguns álbuns foram relançados para incluir as novas versões - obrigando o público a pagar duas vezes pelo mesmo produto - coisas que não aconteceriam se existissem singles onde essas faixas fossem normalmente veiculadas.
Durante a CD Expo do ano passado - a maior feira musical do Brasil realizada no Rio de Janeiro, que está na terceira edição até o dia 26 no Pavilhão 4 do Riocentro - a grande expectativa era justamente a chegada do CD-Single ao mercado brasileiro. Mas os fabricantes cancelaram tudo na última hora. Os singles só apareceram meses depois, sem divulgação, em poucas lojas e com músicas de até seis anos atrás. O fracasso foi óbvio, pareceu até premeditado, ressalta Netto.
Após a tentativa, as gravadoras resolveram cancelar os projetos de singles. Foi então que Rafael Netto resolveu iniciar um movimento pela volta do produto, expondo na Internet várias informações sobre o formato.
O mercado deve pensar que ganharia menos se existisse o single, pois o consumidor deixaria de comprar os CDs normais. Mas isso já deveria estar acontecendo com o excesso de coletâneas que são lançadas, acrescenta.
Como um álbum de duas faixas, o single teria dupla função: divulgar a música do momento, para ser tocada em rádios e consumida a preço acessível pelos ouvintes; e divulgar as faixas do chamado lado B, menos comerciais. É verdade que o single traz sempre um sucesso, mas junto vem sempre um material não comercial, usado para preencher o lado B. Com o apelo comercial do single garantido pelo sucesso, o lado B seria a válvula de escape do artista, onde ele lançaria tudo o que considera interessante, mas que não venderia num álbum, assegura Netto, lembrando que o single de Elton John em homenagem a Lady Di ganhou disco de platina e teve enorme divulgação na imprensa.
O single bem divulgado faria o artista atingir um público muito maior do que os CDs comuns. Isto chamaria a atenção para os álbuns originais, que poderiam vender ainda mais, argumenta.
Apesar da resistência do mercado fonográfico brasileiro, alguns singles foram lançados este ano, como My Heart Will Go On - Remixes, de Celine Dion, e Ray of Light, da Madonna. Só que continua não havendo divulgação, eles não estão em loja nenhuma, é como se não existissem, reclama Rafael Netto.
Para os compositores, o CD-Single representaria a chance de chegar ao mercado sem a necessidade de gravar um álbum completo: Muitos artistas consagrados devem o início de sua carreira aos compactos de vinil. Sem singles, é preciso gravar um disco cheio, que exige dinheiro e repertório, coisas que nem todo artista novo tem.
O desaparecimento do compacto ou single causa estranhamento também pela própria história da indústria fonográfica. No final dos anos 40 surgiram os álbuns de vinil, com 33 e 1/3 rotações, que abrigavam várias faixas de cada lado e substituíram os acetatos de 78 rotações. O disco de acetato foi adaptado para um formato em vinil de 45 rotações, de sete polegadas, com grande furo central. Desde então surgiram variações, como o compacto de 33 e 1/3 rotações, o compacto duplo, o extended-play - com 12 polegadas. Esses formatos duraram no Brasil até a entrada do CD, no final dos anos 80.
Nos Estados Unidos, o single ocupou o formato do CD normal, de 12 centímetros. No Japão e em alguns lugares da Europa, o CD-Single ganhou uma versão de oito centímetros - por isso o prato do CD-player tem uma depressão central menor.
Entre as desvantagens do CD-Single está justamente o compromisso com o sucesso. Como o compacto, o single permanece à venda enquanto a música está nas paradas, depois, como produto efêmero, desaparece ou torna-se raro - por isso é muito procurado pelos colecionadores.





