Associação médica resgata a história de Londrina
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quarta-feira, 20 de setembro de 2000
Francelino França De Londrina 
Parte da história de Londrina está sendo recuperada pela Associação Médica, através dos projetos desenvolvidos pelo Centro de Documentação e Memória. A entidade possui em seu acervo correspondências, recortes de jornais, livros, coleções de jornais da Associação Médica Brasileira e Paranaense e um conjunto iconográfico formado por 4.000 fotografias. Todo material foi aglutinado a partir de 1970, quando foi construída a sede da AML na Praça 1º de Maio, centro de Londrina.
O local abriga apenas a sede cultural, desde que a sede administrativa foi transferida para a Av. Harry Prochet. O diretor responsável pelo Centro de Documentação e Memória é o médico Samuel Silva da Silva. Segundo a coordenadora do setor, Amélia Tozzetti Nogueira, dois projetos estão sendo realizados: História Oral e o Projeto de Organização do Acervo Fotográfico.
No primeiro, foram feitas 22 entrevistas, a maioria com médicos pioneiros, dentro de uma metodologia científica que segue algumas etapas, como a gravação do depoimento em vídeo, passando por fita cassete e a transcrição. Os depoimentos retratam as dificuldades e condições de trabalho, quando a cidade era apenas uma promessa de marketing dos ingleses. O cirurgião Caio de Moura Rangel lembra em seu depoimento que tomou um susto em sua chegada. Londrina era pior do que esperávamos, confessa.
Inúmeros médicos assustados tomavam o caminho de volta, sem levar poeira nos sapatos. Outros médicos confessaram que a Cia. de Terras impedia que fossem divulgados notícias de surtos de tifo e febre amarela, que aconteciam em Londrina. Amélia Nogueira relembra que a precariedade dos hospitais da cidade nos anos 30 e início dos anos 40 ficou evidente após um grave acidente de ônibus. O fato impulsionou uma campanha para construção da Santa Casa de Londrina, inaugurada em 1944.
Os depoimentos revelam a vida dos médicos além dos corredores dos hospitais, quando faziam o footing em frente às Casas Pernambucanas, na Av. Paraná. Os garbosos doutores reservavam os sábados e domingos para galantear as moças casadoiras da cidade. Também observou-se que nas primeiras décadas, praticamente não existia para os médicos separação entre vida pública e privada, antes da cidade organizar um sistema público de saúde. Os pacientes procuravam os médicos em suas residências a qualquer hora do dia ou da noite.
As ambulâncias da Londrina rural eram camionetes ou até mesmo carroças, onde os pacientes eram acomodados num colchão na carroceria. Era comum a prática de pagar os honorários médicos em espécies, com galináceos e ovos. Outra história resgatada se refere ao médico Newton Câmara, simpatizante do Partido Comunista, preso nos anos cinquenta, perseguido pelas milícias getulistas. Como era o único médico habilitado a fazer endoscopia (exame do aparelho gástrico), era solto para realizar os exames e, em seguida, reconduzido à cadeia. As freiras da Santa Casa fizeram passeata reivindicando a liberdade de Câmara.
Desde abril, na AML, sete estagiários dos cursos de Biblioteconomia e Arquivologia, da Universidade Estadual de Londrina, se debruçam no Projeto de Organização de Acervo Fotográfico fazendo a identificação, tratamento e catalogação de aproximadamente 4.000 fotos. No momento, estão na parte mais penosa do processo, identificando pessoas, locais e eventos de fotos feitas a partir de 1940.
Inúmeras fotos retratam esse link entre desenvolvimento histórico de Londrina e atuação da AML, como na fundação da Santa Casa de Londrina e na criação da Faculdade de Medicina. Esse acervo iconográfico será digitalizado e, posteriormente, colocado na Internet.
Amélia Nogueira ressalta que a intenção da entidade é disponibilizar o material dos dois projetos à comunidade, em caráter de pesquisa. Na área cultural, a AML possui ainda três projetos aprovados pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura: Encontros Musicais (realizado toda segunda-feira), Cinema em Vídeo (aos sábados) e Ópera aos Domingos.


