Associação Brasil 500 anos inaugura "maior museu climatizado" em SP
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2000
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 25 (AE)- A Associação Brasil 500 Anos inaugura na segunda-feira (28) o que seu presidente, Edemar Cid Ferreira, está chamando de "o maior museu climatizado abaixo da linha do Equador". Trata-se do Pavilhão Lucas Nogueira Garcez (a famosa "Oca" localizada ao lado do prédio da Bienal), projetado por Oscar Niemeyer no Parque do Ibirapuera em 1954, por ocasião da exposição do quarto centenário de São Paulo.
Fechado há 14 anos, o prédio foi reformado e ganhou um sistema de ar refrigerado de última geração a um custo de R$ 10 milhões - um quarto do orçamento de toda a Mostra do Redescobrimento. O prédio, que até recentemente abrigava precariamente o chamado Museu da Aeronáutica e Folclore, tem 10 mil metros quadrados de área construída - toda ela totalmente climatizada.
"Os 10 mil metros de área climatizada tornam o edifício capaz de receber qualquer tipo de exposição de artes visuais", disse Edemar Cid Ferreira, presidente da Associação Brasil 500 Anos. Ele conseguiu a cessão do prédio - que pertence à prefeitura de São Paulo - por três anos, período no qual pretende receber mostras de museus internacionais. A associação tem convênios com 17 museus do mundo, entre eles o Beaubourg, o Guggenheim, o British Museum e a Fundação Gulbenkian.
"Aqui não foi feita nenhuma novidade: é exatamente a devolução do prédio como ele estava no dia de sua inaguração", disse o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, responsável pelo projeto de recuperação do pavilhão. "A única coisa que foi acrescentada é o sistema de climatização que torna esse museu o melhor da América", afirmou Mendes da Rocha. Para se ter uma idéia, a área climatizada é três vezes maior do que a da Bienal de São Paulo. É um sistema caro. Existe agora uma usina de água gelada fora do museu (foi cavado um buraco de 10 metros de profundidade e 20 metros de largura), no subsolo, que envia ar frio por meio de dutos para o interior do prédio. "Eu posso ter aqui temperatura mínima de 0 grau", diz Ferreira. A diferença desse sistema para os convencionais é que o ar já tem um nível de umidade que garante a realização de todo tipo de exposição, de qualquer natureza. O ar condicionado costuma ser muito seco.
O prédio só ganhou um elevador hidráulico (no lugar onde estavam as escadas rolantes) e um auditório com 120 lugares, totalmente reformado. O arquiteto Mendes da Rocha vê a Oca do Ibirapuera como o melhor museu da atualidade no País. "Primeiro porque ele permite uma visão vertical e horizontal das obras", ele diz. "Esse museu tem um espaço interno absolutamente inesperado, mágico: você olha por fora e não imagina como é essa obra sublime do Oscar Niemeyer", afirma. É um edifício que tem três princípios estruturais associados: a calota, o nível do muro de arrimo cilíndrico (abaixo do nível do solo) e os três andares que são acastelados com um sistema de pilar, o que os torna independentes.
O prédio é pouquíssimo conhecido. Mas a associação quer torná-lo bem conhecido nos próximos três anos. Os acordos com os 17 museus internacionais vão possibilitar exposições que farão inveja até a Bienal. "Todas as grandes obras que vieram para o Brasil nós é que trouxemos para a Bienal, em 1993", informa Ferreira, que era presidente da fundação naquele ano. Ele trouxe Munch, Klee e Malévitch, entre outros. "Aquele espaço museológico foi criado por causa dessas exposições e eu vi que essas mostras só viriam ao Brasil quando tivéssemos condições de segurança e climatização apropriadas."
Ferreira achou que a Mostra do Descobrimento seria um bom pretexto para arrumar um espaço nobre com as condições apropriadas. Daí, ele foi pesquisar o equipamento adequado nos Estados Unidos. A empresa que Ferreira descobriu lá veio aqui para projetar e fabricar especialmente o sistema para o prédio do Ibirapuera.
Mas não é um investimento muito alto para ser usufruído só durante três anos? "Mas nós estamos doando à cidade um espaço museológico que é o mais importante da América Latina", garante Edemar. "Abaixo do Equador, é o único espaço com essas condições: o Brasil passa a fazer parte da Fórmula 1 dos museus", informa.
Acomodação - Para conseguir fazer a reforma, Ferreira contou com a boa vontade de Rodolfo Konder, secretário da Cultura do município, e Ricardo Ohtake, da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. O Museu do Folclore foi acomodado na Casa do Sertanista, no Butantã. Trata-se de um acervo de cerca de 10 mil peças - iniciado pelo escritor Mário de Andrade nos anos 30 e continuado por Rossini Tavares de Lima -, que, ultimamente, estava sendo devorado pelos cupins.
A Casa do Sertanista, tombada pelo patrimônio histórico, foi construída no século 18 pelos bandeirantes para o padre Melchior e é uma das únicas edificações desse período - com paredes de taipa de pilão de quase 1 metro de largura, chão de terra batida e telhado coberto por "telhas de coxa". O Museu do Folclore possui uma coleção de pintura naf, teatro de fantoches, bonecos, brinquedos e instrumentos. Artesanato, vestimentas, tecelagem, cerâmica decorativa e utilitária são outras peças curiosas do museu que também conta com biblioteca, cursos, palestras e oficinas e oferece visitas monitoradas.
Já o Museu da Aeronáutica foi deslocado para o Parque Centro Municipal de Campismo, no km 21 da Rodovia Raposo Tavares. É administrado pela Fundação Santos Dumont. Lá, ele ganharia um hangar e uma oficina para reformar os aviões do acervo. Entre os aviões do acervo está o lendário Jahu, construído em madeira nos anos 20 e usado na travessia do Atlântico.
Liberada para viver uma nova fase, a Oca de Oscar Niemeyer será reaberta no dia 22 de abril com as exposições de Arqueologia e Artes Indígenas, dois dos 12 módulos previstos na Mostra do Redescobrimento. A mostra Arqueologia tem curadoria de Maria Cristina Mineiro Scatamacchia e Eduardo Goes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Traz, entre outros, objetos do Museu Emílio Goeldi (do Pará) e do Museu do Colégio Catarinense (de Santa Catarina). A mostra Artes Indígenas também tem obras de museus de todo o País e curadoria de Lúcia Hussak van Velthem (do Museu Emílio Goeldi) e do português José António Braga Fernandes Dias (da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa).
Museu Virtual - Outro espaço especial que será inaugurado com a Mostra do Redescobrimento é o Museu Virtual, uma caverna high tec que está sendo montada na quadra de esportes do edifício da Bienal. Lá, haverá um cinema com capacidade para 600 espectadores e tela com 16 metros de comprimento por 10 metros de altura. O Museu Virtual será aberto com a exibição de um filme especial, em alta definição, sobre a vida no Brasil pré-histórico, há 30 mil anos. O documentário está sendo produzido por Nelson Hoineff e Marcelo Dantas.


