A invasão do espaço doméstico é tema recorrente no cinema de angústia contemporâneo, e esta parece tendência em alta entre os produtores do ''medo''. Entre os diversos títulos que têm sobressaltado as platéias recentemente, chega agora ''Os Estranhos'' (confira na programação de cinema na página 2), um desses exemplares da fórmula huis clos: personagens e platéia trancafiados num beco sem saída, suando e sofrendo a não mais poder até o final libertador - ainda bem que o pessoal da produção anda encurtando o sofrimento, e este aqui só tem 85 minutos.
Esta estréia do diretor Bryan Bertino afirma basear-se em fato real ainda por ser esclarecido, mas parece beber mesmo é da fonte ficcional e muito inquietante de um clássico de Sam Peckinpah, ''Sob o Domínio do Medo'', de 72, e do bem mais recente ''Funny Games'', do austríaco Michael Hanecke.
O argumento é sobre o cerco que alguns sádicos mascarados fazem a uma garota (Liv Tyler) e ao namorado dela (Scott Speedman), aparentemente com a relação em crise. A tortura principal não se consuma em violência gráfica, mas antes pela presença implacável do assédio, do cerco, do desassossego, da intimidação, do poder arbitrário. A idéia, mais ou menos óbvia, é denunciar a crescente violência que permeia as relações sociais neste mundo cada vez mais desumanizado.
Mas mesmo com uma direção até surpreendentemente sólida e tradicional ao manejar o suspense psicológico - predominância de ruídos e gestos dos personagens -, a dúvida mais inquietante que fica na cabeça do espectador que não se deixa enganar com facilidade é saber se se trata de uma proposta crítica com intenções mais sérias ou de apenas outra celebração de rituais de violência gratuita. (C.E.L.J.)

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