Assassinos na sala de estar
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de agosto de 2001
Marcos Losnak<BR>De Londrina<BR>Especial para a Folha2 
Tudo indica que o romance policial tornou-se o gênero literário em maior expansão no mercado editorial brasileiro. Nos últimos anos várias editoras abriram coleções específicas para abastecer as estantes dos leitores. É o caso da ''Série Policial'', da Editora Companhia das Letras, e da ''Série Negra'', da Editora Record.
Com mais de vinte títulos publicados nos últimos três anos, a ''Série Policial'' da Companhia das Letras acaba de ganhar dois novos títulos, ''Assassinos Sem Rosto'', de Henning Mankell, e ''Punhalada no Escuro'', de Lawrence Block. Os dois livros marcam o início do relançamento da coleção completa com novo projeto gráfico que padroniza a coleção.
Nascido em 1948, o sueco Henning Mankellk passou a ser conhecido no mundo todo através das investigações do inspetor Kurt Wallander. Editadas em 29 países suas aventuras policiais chegaram a ser transformadas em minissérie de televisão na Alemanha. Em ''Assassinos Sem Rosto'' o inspetor Wallander procura desvendar um crime violento e sem muitas pistas.
Num país onde a violência é fato raro, como na Suécia, um duplo assassinato choca a população. Uma casal de velhos agricultores é encontrado morto em sua propriedade rural. Os requintes de crueldade pela qual os dois foram submetidos impressionam até os mais experientes policiais. Duas únicas pistas são encontras: a palavra ''estrangeiros'' proferida pela mulher antes de morrer e o fato de os assassinos terem alimentado o cavalo do sítio.
Como pano de fundo, Henning Block coloca um assunto que pode ser considerado uma ferida atual na Europa: o aumento de fluxo de imigrantes sem perspectiva deslocando-se para países desenvolvidos com a esperança de uma vida melhor. E o fato do crime ter alguma relação com estrangeiros abre uma série de questões nem sempre palatáveis. Para temperar a trama, durante as investigações o inspetor Wallander vive uma conturbada crise pessoal.
Nascido em 1938, o norte-americano Lawrence Block é considerado uma das grandes vozes do romance policial americano da atualidade. Com mais de 40 livros publicados, recebeu os prêmios mais importante de seu país. Em ''Punhalada no Escuro'' apresenta a investigação do detetive Matthew Scudder sobre um crime ocorrido no passado. Oito mulheres são assassinadas por um ''serial killer'' num mesmo bairro. A arma que o criminoso utilizada é um furador de gelo. Dez anos depois, um homem confessa que matou sete mulheres. Então, o pai da oitava vítima contrata os serviços do detetive para encontrar o verdadeiro assassino da filha.
Descobrir o culpado por um crime ocorrido há dez anos não é uma tarefa fácil, mas Scudder entrará de cabeça no desafio. Sua história pessoal não é nada agradável: abandonou a polícia após matar uma criança inocente num tiroteio, durante uma perseguição. Trabalhando em casos particulares, consegue ter tempo para afogar suas mágoas no álcool e tentar se livrar dos fantasmas do passado que o perseguem.
Determinado como um cão farejador mesmo quando o pai da vítima pede para que ele abandone as investigação ele segue em frente como um sóbrio louco. Mesmo que algumas feridas fiquem abertas: ''A memória é um animal que coopera, ansioso por agradar; o que ela não pode fornecer às vezes inventa, redesenhando cuidadosamente os desvãos que se apagaram.''
Se ''Assassinos Sem Rostos'' apresenta uma narrativa mais eletrizante, ''Punhalada no Escuro'' é mais humanizante. Lawrence Block coloca no detetive Scudder uma angústia existencial que vai um pouco além do universo habitado por mocinhos e bandidos dos romances policiais. No final das história, por exemplo, o investigador toma um conhaque para afastar a mágoa de ter descoberto os verdadeiros fatos. Em seguida precisa tomar um bourbon para afastar a angústia causada pelo conhaque.
q ''Assassinos Sem Rosto'', de Henning Makell, Editora Companhia das Letras, tradução de Beth Vieira, 312 páginas, R$ 28,00.
q''Punhalada no Escuro'', de Lawrence Block, Editora Companhia das Letras, tradução de Maria Helena Rodrigues de Souza, 200 páginas, R$ 24,50.


