'Assalto à Brasileira': do Calçadão de Londrina ao cinema nacional
Filme baseado num fato acontecido na cidade evoca outras histórias reais que chegaram às telas; confira o trailer
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de setembro de 2025
Filme baseado num fato acontecido na cidade evoca outras histórias reais que chegaram às telas; confira o trailer
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 
O que é a vida real? E a ficção? Fatos da vida real e cinema baseado nesses fatos – mas acrescidos de elementos ficcionalizados – têm uma relação complexa e de mão dupla: o cinema se baseia na realidade para criar suas narrativas, muitas vezes dramatizando histórias reais ou explorando questões sociais; e, por sua vez, pode causar um impacto profundo na vida real, influenciando valores, ideias e experiências humanas, tanto por meio da ficção quanto pela representação da própria realidade.
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Estas considerações vem a propósito do lançamento, na última quinta feira (18) no 58º Festival de Cinema de Brasília, do longa-metragem “Assalto à Brasileira”, de José Eduardo Belmonte. O filme, que tem apoio da FOLHA, traz o ator Murilo Benício no papel do repórter Paulo Ubiratan, e Christian Malheiros como Moreno, o chefe do bando que realizou um assalto que entrou para a história.
O filme, baseado no livro-reportagem do escritor londrinense Domingos Pellegrini (lançado em 1988 e no momento em relançamento pela editora Faria e Silva), teve filmagens em locações em Londrina no final do ano passado. Portanto, está incluído no rol dos “baseados em fatos reais” ou, como o espectador brasileiro foi educado desde sempre pela colonização hollywoodiana, “based on a true story”.
Assista ao trailer:
ESTREIA EM LONDRINA
O cinéfilo londrinense vai ter que esperar alguns meses - a estreia aqui está prevista para final de outubro, durante a Mostra Kinoarte de Cinema - para saber até que ponto os eventos concretos da história daquele assalto ao Banestado no centro da cidade, em dezembro de 1987, foram mantidos, e até que ponto houve possíveis mudanças narrativas.

Neste processo de adaptação, os filmes podem tomar liberdades criativas, como dramatizar ou modificar eventos para fins narrativos, o que significa que a representação na tela pode não ser uma reprodução exata da realidade. Ou os criadores da transposição podem interpretar eventos subjetivamente, e diferentes perspectivas podem influenciar a forma como a história é apresentada. É possível até suprimir personagens, ou mesmo realçar o papel de outros. Claro, desde que as novidades não alterem o sentido das coisas, não transfigurem o clima original da ocorrência. Que sejam fieis ao espírito do tempo.
LADRÕES QUE ROUBAM LADRÕES
Quem viveu a proximidade física daquele fato real, daquele assalto, daquela trapalhada peripatética dos pobres contra os mais pobres, dos mais ou menos legais contra os momentaneamente ilegais, dos ladrões que roubavam ladrões, quem presenciou a quase tragédia, nas ruas ou lendo a insubstituível, decisiva mídia impressa, espera agora que sua memorabilia tenha sido respeitada.

E do escândalo do Banestado, descoberto em 1990, poucos anos depois do mambembe assalto em Londrina, alguém se lembra do tamanho do rombo e que fim levou aquela pantomima? Pois bem: 134 bilhões de dólares em remessas ilegais para o exterior, absolutamente ninguém preso, “fatos reais” ignorados pelo cinema, daria outro filme...

HISTÓRIAS REAIS NAS TELAS
"O Assalto ao Trem Pagador"
Ocupando o 29º lugar na lista dos cem filmes mais importantes na história do cinema brasileiros em votação organizada em 2015 pela Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema – “O Assalto ao Trem Pagador”, realizado em 1962 por Roberto Farias, é um dos melhores exemplos do “fato real” que chegou às telas brasileiras com enorme integridade. E um clássico indiscutível. O filme retrata o famoso assalto contra o trem pagador da Estrada de Ferro Central do Brasil, ocorrido em 14 de junho de 1960 entre Japeri e Miguel Pereira, no Estado do Rio.
A quadrilha de cinco mascarados liderada por Tião Medonho roubou 27 milhões de cruzeiros. Apenas um dos assaltantes não era favelado: o personagem vivido por Reginaldo Faria, que desobedece a ordem de não gastar logo sua parte e põe em risco o plano. Grande Otelo é destaque em elenco de alto nivel.

"Ônibus 174": o Social e o Cultural
Ambicioso, mas bem resolvido, o documentário de José Padilha parte em duas frentes e se dá bem em ambas: a narrativa do sequestro do ônibus carioca que faz a linha 174, no ano 2000 (o filme é de 2002), e a história de vida do sequestrador, Sandro do Nascimento.
Trauma, memória e narrativa, tudo imbricado e convergindo para uma conjuntura social e cultural. A forma como Padilha narra a história, a justaposição do fato-real-sequestro e do fato-real-trajetória do sequestrador, dá ao filme o seu significado: o de que o Estado produz violência ativamente no Brasil.




