ASPEREZAS DE UMA FÁBULA MÍSTICA
‘‘Divinas Palavras’’ aborda a inveja, o oportunismo, o ciúme e a luta pela honra
Jackeline Seglin
Marcio Lima/DivulgaçãoCena de ‘‘Divinas Palavras’’: ‘‘não há sentido em chocar por chocar’’A brutalidade humana toma corpo em ‘‘Divinas Palavras’’, montagem que a alemã Nehle Franke desenvolveu com um grupo de atores da Bahia, transportando uma história européia para a realidade do sertão nordestino. O espetáculo estréia hoje no Festival Internacional de Londrina (Filo), às 22 horas, no Alternativo I.
Baseado no texto do espanhol Ramón del Valle-Inclán, escrito em 1920, ‘‘Divinas Palavras’’ é uma fábula mística de poesia áspera e ironia cortante, ambientada na linguagem rude do povo e das feiras do interior. Conta a história de Laureano, um anão que, por causa de suas deformidades, é exposto pela própria mãe em feiras como atração bizarra. Com a morte da mãe, ele passa a ser disputado pela irmã, Márcia, e pela cunhada, Mari-Galli.
Cansada da miséria e de seu casamento com o sacristão da cidade, Mari-Galli sequestra e foge com Laureano. Sentindo-se livre, tem um caso com um jovem ator de teatro, Sétimo Miau. Para vingar-se, o marido de Galli tem uma relação incestuosa com a filha.
A história não termina aí. Uma noite, Laureano é embebedado por mendigos até a morte. Sem sua fonte de renda, Mari-Galli volta para casa, onde começa uma nova disputa familiar: quem vai pagar o enterro de Laureano?
A montagem de ‘‘Divinas Palavras’’ uniu três elementos básicos: um texto espanhol, um elenco brasileiro e uma diretora alemã. Para trabalhar o texto original, Nehle Franke transpôs uma realidade da Galícia (na Espanha) para o sertão nordestino. ‘‘Procurei os paralelos desta história com o sertão baiano’’, conta. A montagem brasileira utilizou uma linguagem adaptada para um subdialeto do sertão.
Para Nehle Franke, o texto faz um estudo profundo da alma humana, o que o torna universal. Aborda a inveja, o oportunismo o ciúme e a luta pela honra. ‘‘São questões essenciais do ser humano’’. Mas a diretora faz questão de salientar que ‘‘Divinas Palavras’’ não é um espetáculo panfletário. A idéia é jogar basicamente uma única pergunta ao público: a que ponto chega a crueldade humana?
‘‘Tentei explorar este elemento por achar uma possibilidade de se comunicar de forma mais imediata com o público. E nós retratamos uma situação, sem a preocupação imediata de chocar as pessoas. Isso acontece normalmente.’’
O trabalho de adaptação do texto exigiu algumas alterações e cortes. Nehle explica que o teatro possibilita mostrar muitas coisas. ‘‘Eu não quis cortar justamente os aspectos desagradáveis da vida do povo. Para mim, não há sentido chocar só por chocar. Há uma intenção’’.
‘‘Divinas Palavras’’ aborda temas incômodos como incesto, adultério e assassinato. ‘‘No contexto, existe uma hierarquia do pecado. Para um dos personagens, por exemplo, matar um aleijado é menos agressivo do que cometer adultério.’’
Na tentativa de fugir do convencional e quebrar a relação fixa entre platéia e palco, Nehle Franke criou uma arquibancada giratória para este espetáculo. ‘‘Cada montagem chama seu próprio espaço; este, no caso, tem essa solução, na qual o público gira no meio do espetáculo.’’ A diretora conta que o texto original pedia vários espaços e ela quis fugir das trocas de cenários, entradas e saídas dos atores.
Neste espetáculo há dois mundos. O do vilarejo, que mostra a aridez, a petrificação das pessoas, e o da feira, que salienta a diversão. Essa diferença é traduzida na iluminação, nos figurinos e em alguns elementos cênicos. Por outro lado, esses mundos separados se unem com o movimento da arquibancada. ‘‘O público chega a perder a noção de espaço e isso é legal porque dá para brincar com a ilusão do teatro.’’
Além da arquibancada giratória, a montagem usa outros elementos estilizados como complemento. Maquiagem feita com barro, música ao vivo (sanfona) e marionetes (utilizadas pelo personagem bonequeiro).
A alemã Nehle Franke, de 26 anos, chegou no Brasil em 1994. Em Fortaleza, montou três espetáculos. ‘‘Divinas Palavras’’ foi seu quarto projeto: um grupo de 10 atores foi criado exclusivamente para esta montagem, que estreou no ano passado. Foram nove meses de trabalho, entre ensaios e pesquisas, que incluíram diversas viagens dos atores ao sertão da Bahia.
‘‘Divinas Palavras’’ ficou em cartaz durante cinco meses em Salvador, foi apresentado no Festival de Curitiba e em São Paulo. As viagens do grupo são patrocinadas pelo governo do Estado da Bahia (através da Fundação Cultural) e da prefeitura de Salvador (Fundação Gregório de Matos).
• Divinas Palavras - espetáculo com grupo de atores da Bahia, dirigido pela alemã Nehle Franke. Hoje, às 22 horas, e amanhã, às 20 horas e 22h30, no Alternativo I (Rua Quintino Bocaiúva, esquina com a Benjamin Constant). Adaptação: Nehle Frank. Elenco: Ana Paula Bouzas, Andréa Elia, Caco Monteiro, Caíca Alves, Cibele de Sá, Elydia Freire, Evelyn Buchegger, Fábio Vidal, Kátia Leal e Rino Inácio. Composição musical: Xangai. Cenografia: Ayrson Heráclito e Haroldo Garay. Músico: Branco. Figurino: Moacyr Gramacho. Iluminação: Irma Vidal. Bonecos: Olga Gomez. Adaptação de linguagem: Elomar e Xangai. Ingressos a R$ 10,00 (estudantes, idosos e funcionários da Universidade Estadual de Londrina têm 50% de desconto).

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