Vai ser difícil chineses, coreanos e japoneses saírem este ano do 53º Festival Internacional do Filme de Cannes sem pelo menos um prêmio importante. Além da chance matemática, via quantidade – há seis na corrida pela Palma de Ouro –, a estréia da comitiva asiática deixou claro que a curadoria da mostra não fez nenhum tipo de homenagem ou concessão. ‘‘Guizi Lai Le’’, ou ‘‘Demônios Batem à Porta’’, em tradução mais ou menos livre, está aqui por méritos indiscutíveis, e marca a primeira incursão chinesa no festival.
O diretor Jiang Wen, ator e aplicado discípulo de Zhang Yimou, resolveu tocar em ferida profunda – e até hoje não totalmente cicatrizada – da história dos conflitos bélicos chineses. Sua história se passa numa aldeia remota e milagrosamente a salvo da devastação causada pela ocupação japonesa e pela guerra civil. Um camponês, Ma Dasan, recebe uma estranha e ameaçadora incumbência de um desconhecido na calada da noite: cuidar de um prisioneiro japonês e de seu intérprete chinês, sob pena de ser executado.
Durante seis meses ninguém aparece para reclamar o prisioneiro. Na pequena aldeia o clima é de medo. A despeito do ódio e da tensão entre as partes, uma certa humanidade se insinua nesta relação inusitada. Mas a comida acaba e os camponeses decidem matar o japonês prisioneiro. E ninguém quer assumir a responsabilidade pela execução.
A narrativa é dura, árida, extensa – 2 horas e 44 minutos, em preto-e-branco –, mas dura o que tem que durar. Um referência óbvia é Kurosawa, mas Jiang Wen procura seguir seus próprios passos. Seu estilo é nervoso, com montagem ágil. O conflito moral não é tratado de maneira clássica, mas comporta nuances imprevisíveis da crueldade de que são feitas as guerras. Não satisfeito em passar a limpo as diferenças entre japoneses e chineses, Wen resolve ir mais fundo e puxa o todo pela parte. Vale dizer, a guerra, qualquer guerra passa a ser o alvo preferencial. Como os desdobramentos são muitos, e por muito tempo, o filme vez ou outra perde as amarras e afrouxa. Mas logo retoma sua esplendida dialética sobre matar ou não matar, morrer ou não morrer, e em nome exatamente de quê.

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