ÁSIA ESTRÉIA BEM EM CANNES
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de maio de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes Especial para a Folha2 
Vai ser difícil chineses, coreanos e japoneses saírem este ano do 53º Festival Internacional do Filme de Cannes sem pelo menos um prêmio importante. Além da chance matemática, via quantidade há seis na corrida pela Palma de Ouro , a estréia da comitiva asiática deixou claro que a curadoria da mostra não fez nenhum tipo de homenagem ou concessão. Guizi Lai Le, ou Demônios Batem à Porta, em tradução mais ou menos livre, está aqui por méritos indiscutíveis, e marca a primeira incursão chinesa no festival.
O diretor Jiang Wen, ator e aplicado discípulo de Zhang Yimou, resolveu tocar em ferida profunda e até hoje não totalmente cicatrizada da história dos conflitos bélicos chineses. Sua história se passa numa aldeia remota e milagrosamente a salvo da devastação causada pela ocupação japonesa e pela guerra civil. Um camponês, Ma Dasan, recebe uma estranha e ameaçadora incumbência de um desconhecido na calada da noite: cuidar de um prisioneiro japonês e de seu intérprete chinês, sob pena de ser executado.
Durante seis meses ninguém aparece para reclamar o prisioneiro. Na pequena aldeia o clima é de medo. A despeito do ódio e da tensão entre as partes, uma certa humanidade se insinua nesta relação inusitada. Mas a comida acaba e os camponeses decidem matar o japonês prisioneiro. E ninguém quer assumir a responsabilidade pela execução.
A narrativa é dura, árida, extensa 2 horas e 44 minutos, em preto-e-branco , mas dura o que tem que durar. Um referência óbvia é Kurosawa, mas Jiang Wen procura seguir seus próprios passos. Seu estilo é nervoso, com montagem ágil. O conflito moral não é tratado de maneira clássica, mas comporta nuances imprevisíveis da crueldade de que são feitas as guerras. Não satisfeito em passar a limpo as diferenças entre japoneses e chineses, Wen resolve ir mais fundo e puxa o todo pela parte. Vale dizer, a guerra, qualquer guerra passa a ser o alvo preferencial. Como os desdobramentos são muitos, e por muito tempo, o filme vez ou outra perde as amarras e afrouxa. Mas logo retoma sua esplendida dialética sobre matar ou não matar, morrer ou não morrer, e em nome exatamente de quê.


