Ascensão e queda de um gênio
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de novembro de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
ReproduçãoCarlitos e o Garoto Chapéu coco, bengala, bigode, roupas surradas e passos de pinguim a caminho do mar. Dentro deste humilde figurino, um personagem de bom coração procurava sobreviver à miséria de todo um século com um sorriso nos lábios. Era vítima de um sistema desumano, e mesmo assim, beliscava o inimigo com humor.
Carlitos, personagem criado por Charles Chaplin, tornou-se o grande ícone da história do cinema mudo. Chamado em francês de Charlot, em inglês de Tramp (vagabundo) ou Little Fellow (camaradinha), ele conquistou o mundo com seu delicado humor. As origens de seu criador confundem-se em sua imagem. Chaplin emergiu das classes marginalizadas na miserável periferia de Londres, camada social onde cada história familiar é uma catálogo de humilhações e tragédias. Sua vida - repleta de contradições, conflitos, desavenças e genialidade artística - está em Chaplin - Contraditório Vagabundo, sua mais recente biografia escrita pela norte-americana Joyce Milton.
Charles Spencer Chaplin, nascido em 16 de abril de 1889, teve uma infância miserável em Londres. O pai era um obscuro ator e cantor do teatro de variedades que abandonou a esposa na primeira oportunidade. A mãe, uma cantora de palcos periféricos tentando matar a fome dos filhos quando conseguia alta do manicômio. A melhor companhia de Chaplin foi seu irmão mais velho, Syd , que também seguiu a carreira de ator.
Detalhes Lançado pela Editora Ática, a obra de Joyce Milton se baseia em outras biografias, na autobiografia do próprio Chaplin, em depoimentos e pesquisa em documentos do arquivo íntimo do artista. Cruzando todas estas informações, o livro revela detalhes da produção cinematográfica de Chaplin e de sua polêmica vida particular. Na abordagem da autora, ele era maníaco-depressivo. Como a mãe.
As afirmações polêmicas de Joyce estão na suposta e subliminar tendência homossexual de Chaplin e sua paixão por ninfetas. São detalhes que não ocupam mais que alguns parágrafos. Mas o fato é que casou-se várias vezes com mulheres bem mais novas. Sua última esposa, Oona, tinha 18 anos quando se uniu a Chaplin, na época com 54. Palavras do próprio artista: Eu tinha uma atração violentíssima por meninas de dez ou 12 anos. Sempre me apaixonei por meninas, não num sentido erótico... Era engraçado: não num sentido sexual - gostava apenas de acariciá-las e afagá-las - não apaixonadamente - só para tê-las em meus braços.
Trocando a Inglaterra pelos Estados Unidos atrás de trabalho, Chaplin conseguiu uma ascensão meteórica como ator humorista. Quando o cinema mudo começou a se constituir como poderosa indústria, deixou de ser apenas ator para escrever e dirigir seus próprios filmes com enorme sucesso. Em 1916, assinando contrato com a Mutual Film Company, passou a ter o maior salário individual da América. Correspondia a 94 por cento da folha de pagamento de todo o Senado norte-americano.
Sua mania perfeccionista levava a equipe à loucura. Em The Immigrant (O Imigrante), com pouco mais de 20 minutos, Chaplin rodou 2.700 metros de filme. Aproximadamente a mesma quantidade usada por D. W. Griffith na produção de Birth of a Nacion (Nascimento de uma Nação), filme de seis horas de duração.
Em Chaplin - Contraditório Vagabundo, Joyce divide a vida do biografado em dois lados bem definidos. Sua convulsiva produção criativa até a década de 30 e a montanha de problemas que o acompanharia em seguida. Em 1922, aos 33 anos de idade, Chaplin já havia feito 71 filmes. Nos próximos 40 anos, até sua morte aos 88 anos, realizaria apenas dez. A desilusão com o amor, a fama e a fortuna me deixaram um tanto apático. Parecia não haver nada à minha volta além de meus trabalho, e aquilo, depois de 20 anos, tinha-se tornado maçante. Eu precisava de estímulo emocional - escreveu.
Processos Esteve envolvido em centenas de processos judiciais. Acusado de plágio, sonegação de impostos, pensões de ex-mulheres, violação de contrato, etc. De seu lado, processou todos os estúdios em que trabalhou, responsáveis por fitas piratas, jornais por matérias sensacionalistas, etc. Tudo isso, ao lado de suas inclinações comunistas, ocasionaram sua expulsão dos Estados Unidos em 1952.
Com uma vida conturbada, não encontrou tranquilidade nem depois de sua morte, ocorrida no dia de Natal de 1977. Enterrado num pequeno cemitério na Suíça, seu túmulo foi violado algumas semanas depois: o caixão com o corpo de Chaplin havia desaparecido. Na realidade não se tratava de um roubo, mas de sequestro. Os ladrões exigiram um resgate milionário para devolver seus restos mortais. As negociações com a família estenderam-se por meses e nenhum acordo foi concluído. Mais tarde a polícia encontrou o caixão intacto, enterrado numa fazenda nos arredores de Genebra.
Chaplin - Contraditório Vagabundo - de Joyce Milton, Editora Ática, tradução Marcos Bagno, 509 páginas, R$ 34,90/Livraria Rosa do Povo.


