Ascensão e Queda de um Empreendedor Brasileiro
Vera Bungarten / DivulgaçãoO ator Paulo Betti interpreta Mauá, o Imperador e o Rei, no filme de Sérgio RezendePaulo Polzonoff Jr.A indicação de ‘‘Orfeu’’, de Cacá Diegues, como filme que representará o cinema brasileiro no Oscar torna-se no mínimo questionável depois de assistir a ‘‘Mauá, o Imperador e o Rei’’, de Sérgio Rezende. Tudo bem que o Oscar nunca foi sinônimo de qualidade - e por este ângulo até que ‘‘Orfeu’’ é mesmo a melhor escolha. Não cabe aqui formular hipóteses sobre qual seria o melhor filme a ser indicado. O cinema nacional este ano produziu ao mesmo tempo aberrações, como ‘‘Oriundi’’, e filmes de grande mérito, como ‘‘Estas Estórias’’. ‘‘Orfeu’’ não está em nenhum destes extremos: é tãosomente um filme medíocre.
Este mesmo adjetivo não cabe a ‘‘Mauá, o Imperador e o Rei’’. O filme é uma bela prova de competência do diretor Sérgio Rezende que, com esta cinebiografia, pode ser considerado um cineasta-historiador. Depois de recriar com sucesso o genocídio de Canudos, em 1997, e de contar a história do guerrilheiro Lamarca, em 1994, Rezende presenteia o público com a excelente história de um visionário que nosso tradicional reacionarismo econômico ajudou a derrubar: o Visconde de Mauá. Que este rótulo, porém, não crie um diretor viciado na linguagem histórica.
Rico sem ser faustoso, inteligente sem ser pedante, reflexivo sem ser incompreensível; assim é ‘‘Mauᒒ. A reconstituição histórica é belíssima e muito convincente, fotografada com requinte por Antônio Luís. O roteiro é didático sem ter aquele tom monótono de aula do primeiro grau. Rezende não faz concessões tentadoras em se tratando de cinema nacional, como tornar o filme mais curto na esperança de não afugentar o espectador. Assim foi com Canudos, a maior bilheteria nacional de 1997, que tinha 3h15 de duração e assim é com ‘‘Mauᒒ, com 2h15 de pura (e interessantíssima) História do Brasil.
O filme começa com Irineu Evangelista de Souza, ainda menino, no Rio Grande do Sul, sendo mandado para o Rio de Janeiro depois da morte do pai. No Rio, Irineu trabalha para um comerciante português e acaba por salvá-lo da falência. Seus méritos como guarda-livros (uma espécie de contador da época) fazem com que seja contratado por um comerciante inglês, Carruthers (Michael Byrne), que o instrui na ‘‘arte de Adam Smith’’. Sempre com espírito empreendedor, Mauá construiu um império dentro do Império. Seu patrimônio chegou a ser maior que o orçamento do País inteiro. Transformado primeiro em Barão, depois em Visconde, Mauá tinha tudo para ser um Rosthschild ou um Rockfeller. Graças aos esforços do governo brasileiro, no entanto, faliu.
O elenco de ‘‘Mauᒒ é dissonante. De um lado, Paulo Betti, numa grande interpretação; de outro, Rodrigo Penna, no papel de D. Pedro II, numa escolha infeliz para um papel tão importante. Malu Mader, que representa May, a mulher do Visconde de Mauá, está apenas aceitável, naquele ‘‘padrão-Globo-de-qualidadedramática’’. Othon Bastos, como o Visconde de Feitosa, está mais para a caricatura de um político mau e retrógrado. O grande triunfo do filme é um coadjuvante, o escravo Valentim, interpretado por Antônio Pitanga, que contracena com Paulo Betti num diálogo final emocionante.
Não faltarão apropriações políticas para a história de Mauá. Há quem o tenha como uma espécie de mártir da economia nacional, levado à bancarrota pelo atraso das elites. Há quem veja a cultura inútil de D. Pedro II como uma referência ao também culto Fernando Henrique. Para quem quer tomar o filme como exercício ideológico, aconselho a ler, antes de tomar partido, ‘‘A Nação Mercantilista (Editora 34) e ‘‘Mauá - o Empresário do Império’’ (Cia. das Letras), ambos de Jorge Caldeira.
Aliás, o senão deste ótimo filme fica por conta da luta judicial travada entre Sérgio Rezende e Jorge Caldeira, que alega direitos sobre a obra, que teria sido feita a partir de sua biografia. Não sei se Jorge Caldeira assistiu ao filme, mas creio que talvez desdenhasse dessa pendenga egocêntrica se visse a bela homenagem de Sérgio Rezende ao seu biografado.

mockup