Ascendente em Libra e Lua em Capricórnio
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Marcos Losnak <br> Especial para Folha 2 

Quando um homem chega à beira do precipício, pode pensar em duas opções. Pode pular, ou sentar e apreciar a paisagem. Alguns homens, além dessas duas opções, imaginam uma terceira: criar pontes.
A literatura de Caio Fernando Abreu passeia por essas três opções sempre pautadas pela perplexidade. A perplexidade de estar diante do abismo, seja para pular, apreciar a paisagem ou criar sonhadas pontes.
Caio Fernando Abreu (1948 - 1996) volta às livrarias com o lançamento de "Contos Completos", livro que reúne num único volume todos os seis livros de contos publicados pelo escritor gaúcho: "Inventário do Ir-Remediável" (1970), "O Ovo Apunhalado" (1975), "Pedras de Calcutá" (1977), "Morangos Mofados" (1982), "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso" (1988) e "Ovelha Negras" (1995).
Lançado pela editora Companhia das Letras, trata-se da primeira oportunidade no mercado editorial para os leitores terem nas mãos, num único volume, todos os contos escritos por Caio Abreu em ordem de publicação. E também com as revisões, ajustes e alterações realizadas antes de sua morte.
Os contos retratam a juventude das décadas de 1970 e 1980. Uma geração que vivia entre o desbunde da contracultura e a militância política. A questão que Caio colocava em seus textos era fruto direto da experiência de vida de sua geração. Seu grande trabalho foi revelar a perplexidade diante do enterro de um novo sonho. Uma perplexidade que exigia alguma saída para o fim dos sonhos de paz, amor e liberdade que nascem no final dos anos de 1960 e se frutificam nos anos de 1970.
Uma segunda questão que surge em seus contos deixa explícito que o mundo nunca esteve muito interessado em paz, amor e liberdades. O mundo não gosta de novas rotas, o mundo aprecia as velhas e antigas rotas já mastigadas e ruminadas pelo rebanho.
E como o sonho acabou, uma terceira questão surge: o que fazer com as conquistas de liberdade e as novas experiências vividas? Em outras palavras, como incorporar ao mundo a riqueza dessas experiências pessoais e coletivas, sejam elas de dores ou de alegrias?
Em seus contos, Caio não possui a mínima intenção de oferecer respostas. Sua grande identidade literária está em dimensionar experiências afetivas e emocionais diante das incertezas de um homem diante do abismo.
"Contos Completos" também traz três contos inéditos resgatado do arquivo de manuscritos da "Coleção Caio Fernando Abreu" do Espaço de Documentação e Memória Cultural da PUC do Rio Grande do Sul. O primeiro deles, datado de fevereiro de 1970, possui um título enigmático: "O Meu Travesseiro Tem um Ramo de Trigo do Lado Esquerdo, Mas o Diário de Kafka Está Com a Capa Rasgada". O segundo manuscrito, "Angie", se revela um conto que tinha tudo para fazer parte de "Morangos Mofados", o livro mais conhecido de Caio, mas acabou ficando de fora.
O terceiro manuscrito, datado de agosto de 1991, revela um humor pouco usual na literatura do escritor. O narrador do conto, intitulado "As Quatro Irmãs (Uma Antropologia Fake)", apresenta a tese de que, segundo uma lenda, em qualquer parte do mundo, os homossexuais se dividem em quatro grupos distintos, cada um com suas particularidades e personalidades. São quatro irmãos que atendem pelos nomes femininos de Jacira, Telma, Irma e Irene.
Caio nasceu em 1948, em Santiago, cidade do interior do Rio Grande do Sul. Autor de mais de vinte livros envolvendo vários gêneros (conto, romance, crônica, novela, teatro, etc.), é nome determinante da literatura brasileira contemporânea. Faleceu em 1996, vítima de complicações do vírus HIV.
Uma curiosidade. Caio Fernando Abreu traduziu, em parceria com a poeta londrinense (radicada em São Paulo) Mirian Paglia Costa, o clássico da literatura chinesa "A Arte da Guerra". De autoria de Sun Tzu (século 4 a.C.), o livro foi publicado em 1994 pela editora Cultura. Vale citar uma das frases de Sun Tzu: "Quando você não tiver lugar nenhum para onde se voltar, estará num terreno sem saída". E uma frase de Caio: "Nos perdemos no meio de uma estrada que nunca tivemos um mapa".
Fragmento
Por esses dias sem sol, quando a alma, se é que temos uma, mofa em segredo, quando o olho para além das janelas, procurando horizontes, ou chaminés ao longe ou alguma nuvem, quando por trás dos vincos da pele a memória se contorce tentando reunir os cacos desse grande espelho partido de tudo que vivemos, com os dedos cortados por gumes, entre o sangue, a merda, a porra, entre todos esses rostos, frases, vultos ou fetiches quem sabe o idiota que guardamos - por esses dias sem sol, nem luz, nem cor, penso que sempre que não há nada a fazer, a não ser continuar. E continuamos, entre o ruído dos telefones, as vibrações coloridas dos televisores trazendo palavras, imagens de gente que nunca vimos, e que não nos interessa. Nada interessa além da concentração que pudesse conduzir a esse ponto remoto onde lateja o que chamam de vida.
(Fragmento do conto inédito "Angie", escrito por Caio Fernando Abreu em 1990, que integra "Contos Completos")

Serviço:
"Contos Completos"
Autor - Caio Fernando Abreu
Editora - Companhia das Letras
Posfácios - Italo Mariconi, Alexandre Vidal Porto, Heloísa Buarque de Hollanda
Páginas - 768
Quanto - R$ 79,90


