Às voltas com o cinema
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de agosto de 1998
Celso Mattos 
Quando se fala em retomada do cinema nacional, existem duas coisas que precisam ser ressaltadas: os filmes deixaram de abordar apenas temas urbanos que tinham como cenário as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Atualmente, as produções apresentam temáticas mais diversificadas e regionalizadas. Outra novidade é que as mulheres deixaram de atuar apenas como atrizes para ocupar lugar de comando nas filmagens. Nunca se viu tantas mulheres cineastas e produtoras como agora. Diretoras experientes como Carla Camurati e Ana Carolina se misturam entre as estreantes Norma Bengell, Ana Maria Magalhães, Sandra Wernek, Florinda Bolkan, Tania Lamarca e Eliane Giardini. Quem?
Isso mesmo. Eliane Giardini. Atriz com formação teatral e figura carimbada nas novelas da TV Globo, ela está batalhando patrocínio para levar às telas o filme De Braços Abertos, baseado na peça de teatro de Maria Adelaide Amaral. Eliane vai trabalhar como atriz e produtora. A direção, a princípio, ficará a cargo de Luiz Fernando Carvalho, que se destacou como diretor das novelas Renascer e Rei do Gado. No momento, ele está filmando Lavoura Arcaica, em São Paulo. Eliane Giardini é uma das fundadoras da Casa da Gávea, entidade carioca responsável pela produção de várias peças de teatro que, agora, quer ampliar sua atuação produzindo filmes.
Inicialmente, minha intenção era levar De Braços Abertos aos palcos, mas percebi que daria um ótimo filme e pedi à Maria Adelaide que adaptasse o texto para o cinema. É uma história de amor que une um casal de jornalistas nada convencional, antecipa a atriz. Para os papéis principais estão cotados José Mayer e a própria Eliane Giardini. De Braços Abertos será o primeiro filme produzido pela Casa da Gávea que, em apenas cinco anos de existência, já levou aos palcos peças de sucesso como Pérola, Inimigo do Povo e Querida Mamãe.
Como uma das sócias da Casa da Gávea, Eliane Giardini está fazendo os primeiros contatos para a produção do filme, mas logo de cara percebeu que fazer cinema é bem diferente de fazer teatro. Quando comparado ao cinema, o teatro é muito barato. Além disso, como o teatro é muito artesanal, você pode pendurar todas as dívidas e ir pagando com a bilheteria. No cinema é diferente. Não é possível começar as filmagens sem estar com o dinheiro nas mãos porque o gasto inicial é muito grande. Portanto, é preciso aprender a administrar a ansiedade. Por esse motivo, ainda não definimos a data para iniciar as filmagens, observa a atriz, que prevê um orçamento de R$ 1 milhão para a realização do filme.
Não é uma produção cara, mesmo em se tratando de um filme brasileiro. Mas levantar essa quantia não é fácil, diz Eliane Giardini, contrariando a opinião de uma colega de profissão. A cineasta e produtora Carla Camurati costuma afirmar em entrevistas que conseguir patrocínio não é um bicho-de-sete-cabeças. A Carla é um caso especial. Ela é uma batalhadora. Para uma pessoa que consegue lançar seus filmes no mercado sem ter por detrás uma distribuidora, obter patrocínio não deve ser o mais difícil. A Carla Camurati coloca as latas debaixo do braço e vai de cinema em cinema negociar a exibição de seu filme. Isso é admirável! Porém, é preciso dizer que entre os cineastas brasileiros existe uma atitude, de certa forma cristalizada, em afirmar que tudo é difícil. As dificuldades existem sim, mas é preciso superá-las, defende.
Apesar de concordar que o cinema nacional está vivendo sua melhor fase, a atriz tem sonhos mais ambiciosos: Seria ótimo se em vez de ficar nove meses fazendo uma novela, a gente pudesse fazer três filmes no mesmo período de tempo, como acontece nos Estados Unidos. Eu, por exemplo, gostaria de me dedicar mais ao cinema, mas não posso porque dependo da televisão para sobreviver. Espero que um dia o Brasil tenha uma indústria cinematográfica semelhante à indústria televisiva, que possa produzir filmes na mesma proporção que produz novelas. Recursos humanos nós temos e dos bons, o que falta é investimento na área, afirma.
Apaixonada pelo teatro e pelo cinema, Eliane Giardini demonstra o quanto é frustrante para um ator ou atriz fazer apenas novelas. É ótimo quando você tem a oportunidade de fazer uma minissérie ou um filme, nos quais é possível trabalhar melhor seu personagem, o que é impraticável numa novela. Eu invejo os atores norte-americanos que podem se dedicar apenas ao cinema. Espero que um dia os artistas brasileiros possam optar por aquilo que mais gostam de fazer sem colocar em risco sua sobrevivência, diz Eliane Giardini.


