Às 'Viúvas', o poder
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terça-feira, 04 de dezembro de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
Cinco anos depois de levar o Oscar de melhor filme por "12 Anos de Escravidão", o afro-britânico Steve McQueen dá outra mostra de talento visceral e cerebral - não esquecendo o realista e inquietante "Shame". Um dos melhores filmes de 2018, "As Viúvas" - o artigo definido não faz parte do título original, somente no Brasil ele absurdamente existe - vejam o filme e concluam - estreou em Londrina na última quinta (29). É um filme a que se assiste primariamente como um thriller de suspense e ação. Mas como os melhores filmes cada vez mais escassos, abre margem para outras observações. Que vão depender do olhar (não necessariamente clínico) de cada espectador para que se encontre mais e novos sentidos.

Mais do que um filme de gênero, "Viúvas" recebeu tratamento dramático que o configura como realização acima dos limites que circunscrevem as regras do "suspense de roubo" ou do "policial de ação eletrizante". Ele também traz esses apelos, sim, mas os cuidados são bem outros.
"Viúvas" abre mostrando quatro casais, bastante distintos. A começar pelo casamento inter-racial composto por Viola Davis e Liam Neeson. Estão na cama, apaixonados e (aparentemente) felizes. Mas há outras composições, nas quais a violência doméstica aparece mais ou menos dissimulada. O quarteto masculino na verdade é uma quadrilha, e cortes abruptos na montagem mostram o momento em que estes homens estão concluindo um grande roubo. Mas algo sai errado, e na fuga a bordo de uma van são surpreendidos pela polícia. O veículo explode, os quatro criminosos morrem. E restam quatro viúvas.
Inexperiente, este grupo de mulheres sem maridos deve cometer um assalto para sobreviver. Mas sobreviver a quê? À chantagem de outros criminosos a quem pertencia parte daquele dinheiro do roubo fracassado. À cobrança de dívida de jogo. A uma vida de submissão. Ou de prostituição. À pobreza. O personagem de Liam Neeson, cérebro da quadrilha, deixou um caderno com detalhes sobre o próximo roubo. Sua viúva, Veronica (Viola Davis, com certeza outro indicação para o Oscar), mesmo sem saber bem como a coisa funciona, é levada a formar um time de viúvas, com uma colaboração extra.
Um dos pontos altos de "Viúvas" é que, seguindo as diretrizes do thriller de ação, o roteiro adentra sem cerimônias nas características e na psicologia dos personagens, e sai em busca da contramão racial e política. Não se trata de saber se o golpe sairá bem ou mal. A discussão que se (im) põe agora é sobre gêneros, não sobre gêneros cinematográficos. Sobre a consciência coletiva feminina, materializada por ações/atitudes que vão fortalecer aquelas mulheres. Empoderar é preciso, e "Viúvas" trabalha esse conceito - tomar o poder sobre si. O roteiro de rara esperteza assinado a quatro mãos por Gillian Flynn e Steve McQueen, propõe que o filme seja muito mais que um filme de ação trepidante.
Adaptado de uma série televisiva inglesa dos anos 1980, "Viúvas" traslada a ação de uma "working" Londres para os subúrbios de Chicago, cenário difuso que serve para radiografar uma sociedade desigual e violenta, na qual a segregação racial por distritos segue sendo a norma, onde os bairros mais pobres estão apenas a alguns quarteirões dos mais ricos, as mortes violentas deixaram de ser notícia para se tornarem um hábito, a política - corrupta, naturalmente - é um sistema feito de herança/nepotismo e as armas de fogo são compradas com mais facilidade que um lata de refrigerante.
De um lado, a classe política branca e o sistema, onde a velha guarda permanece visceralmente racista e, por outro, a máfia afro-americana, em busca do poder político. E como recheio neste sanduíche indigesto, as classes menos favorecidas. Nas quais as mulheres de grupos étnicos minoritários são o elo mais frágil da sociedade. E McQueen radicaliza ao apontar possíveis saídas. Um excelente filme, não para todos os gostos, evidentemente.


