"As Viúvas" estréia este fim de semana em SP
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 18 (AE) - O Grupo Tapa oferece ao público uma oportunidade cada vez mais rara no teatro: assistir a duas boas peças no mesmo dia e no mesmo local, o Teatro da Aliança Francesa. Uma delas, "As Viúvas", primeiro espetáculo do grupo dirigido por uma mulher, a atriz Sandra Corveloni, tem uma sessão especial de pré-estréia aberta ao público, amanhã (19), às 21 horas.
A partir de sábado, com apoio do Grupo Pão de Açúcar, o grupo apresenta "As Viúvas", um espetáculo divertido, que reúne três peças curtas de Artur de Azevedo e, logo depois, "Corpo a Corpo", monólogo de Vianinha interpretado por ZéCarlos Machado, somente nos fins de semana.
"Quem quiser ver as duas no mesmo dia pode passar o intervalo no bar da Aliança Francesa", diz Eduardo Tolentino de Araújo, diretor do grupo que está completando 20 anos de existência. "As Viúvas" é um dos frutos do projeto Cena Aberta, patrocinado pelos ministérios da Cultura e do Trabalho, que apoiou a reciclagem profissional de grupos de teatro e dança.
Com a verba do Cena Aberta, o Tapa realizou, no ano passado, leituras dramáticas de dez peças de autores brasileiros. "Como o objetivo do projeto era a reciclagem profissional do grupo, a direção das leituras, algumas delas verdadeiras encenações, foi distribuída entre o elenco", informa Tolentino.
A qualidade da dramatização das leituras e a recepção calorosa do público estimularam o grupo a dar continuidade a alguns trabalhos que receberam melhor tratamento para uma futura temporada. Entre eles o espetáculo "As Viúvas" que reúne os textos "Amor por Anexins", "Uma Consulta" e "O Oráculo".
Todas as peças têm uma viúva como personagem central. "Na época em que foram escritas, no fim do século passado e início deste, a viúva exercia forte atração sobre o imaginário masculino por reunir atributos como independência econômica e sexual e ainda poder ser descartada mais facilmente", comenta Tolentino.
"No início dos ensaios, ainda sem direção, eu comecei a dar umas opiniões e Brian Penido deu a maior força para que eu assumisse a direção", contou Sandra. "As peças mostram as artimanhas da mulher na conquista amorosa o que torna muito interessante o fato de terem sido dirigidas por Sandra, que imprimiu uma visão feminina à encenação", afirmou Tolentino.
Além de dirigi-las, Sandra está no elenco da primeira encenação, "Amor por Anexins", que gira em torno de um pedido de casamento feito por Isaías (Penido) um velho que só fala por provérbios. Ele quer casar-se com a viúva Inês (Sandra) que, por sua vez, é apaixonada por Felipe (Bruno Perillo).
A música é executada ao vivo por Felipe/Bruno ao piano e os atores, em muitos momentos, falam diretamente com a platéia. Artur de Azevedo escreveu essa peça aos 14 anos. "O texto tem a estrutura de um esquete, é o mais simples dos três, porém, no gênero, é bastante engenhoso", diz Sandra.
A relação direta com o público não se repete em "Uma Consulta", história concebida como se a platéia observasse pelo buraco da fechadura o jogo de sedução de um casal apaixonado. Nela, não há música em cena. "Preferi o silêncio para não abafar a partitura de suspiros e gemidos dos personagens nessa peça que é bem mais picante que a anterior", lembra Sandra.
Ela define a viúva interpretada por Sandra Cascioli como a "perua da época", aquela que faz compras na Rua do Ouvidor e está sempre por dentro das novidades da moda. A peça tem início com a viúva entrando no sala de um médico para uma consulta, só que ela erra de porta e entra no escritório de um advogado (Dalton Vigh).
"Na minha concepção, os dois, ambos bonitos e livres, se apaixonam à primeira vista", diz Sandra. No início a platéia diverte-se com o equívoco de ambos, o advogado não percebe o engano e responde a suas perguntas como se a consulta fosse jurídica. Ao perceber o engano, já atraído, finge ser médico para não perder a cliente e passa a ascultá-la, o que resulta na tal delicada partitura de suspiros.
"O Oráculo", com quatro personagens, é a mais bem-acabada de todas no que diz respeito à estrutura dramática. Escrita já no início do século, mostra também a mais emancipada das viúvas, Helena, interpretada por Clara Carvalho, amante do advogado Nélson (Tony Giusti).
"Eles têm um caso duradouro e ele reconhece que ela é bonita, inteligente e carinhosa, mas ainda assim ele está cansado da relação", informa Sandra. Sem saber como terminar o romance, ele consulta o oráculo Frederico Pontes, uma espécie de guru para assuntos sentimentais, interpretado por Riba Carlovich.
No entanto, Helena resolve visitá-lo justamente no dia da consulta e é ocultada na casa pelo mordomo (Fernando Viana). Depois de tomar conhecimento do ardil tramado entre os dois para terminar o caso, a inteligente viúva planeja uma artimanha para virar o jogo. O final é surpresa, claro.
"As peças são muito divertidas, mas eu confesso que ao fim fiquei um pouco triste", diz Sandra. E argumenta que, principalmente a terceira peça, deixa claro que a mulher não pode falar verdadeiramente de seu amor, mesmo quando é correspondida, sob pena de assustar o parceiro. "Ele gostava dela, mas o fato de sentir-se seguro esfriou o amor", observa Sandra.
"O mistério é necessário", reage o ator ZéCarlos Machado. "A mulher não pode deixar o homem achar que ela está na mão dele", completa Tolentino. "Ou seja, eles acusam as mulheres de ardilosas, mas são eles que pedem por isso", reforça Sandra. Típica discordância de sexos, nada que atrapalhe o trabalho que o público pode conferir a partir de amanhã.
Corpo a Corpo - A partir de sábado, o grupo oferece também a oportunidade de ver ou mesmo rever o espetáculo "Corpo a Corpo", com direção de Tolentino, criado há cinco anos, que já valeu ao ator ZéCarlos Machado o prêmio da Associação dos Críticos de Artes (APCA) de melhor ator e ainda indicações para os prêmios Mambembe e Apetesp.
Escrita por Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, a peça conta uma única noite na vida do publicitário Vivacqua, uma noite de profunda crise com sua opção profissional, marcada por uma espécie de "venda da alma ao diabo". Negligente com o afeto, competitivo e ambicioso, ele questiona os valores que norteiam a sua vida. Sucesso - "Infelizmente, depois de cinco anos de temporadas, as questões levantadas pelo texto continuam mais atuais do que nunca", salienta Machado. O monólogo foi criado inicialmente para o palco do teatro, limitado a 40 espectadores, sem maiores pretensões. No entanto, o sucesso de público foi tamanho que o espetáculo já lotou teatros de até mil lugares em excursões pelo interior do Brasil.
Agora volta ao palco do Aliança, novamente numa encenação intimista, uma ótima chance para quem perdeu ou deseja revê-lo.


