As velhas mudanças de um novo ano
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
Marcos Losnak<br> Reportagem Local 
"Um novo ano é apenas a velha ideia de que toda mudança exige intenção. Mas mudanças não são realizadas através de intenções. Mudanças são realizadas através de ações."
Henry David Thoreau registrou essas palavras em seu diário no primeiro dia do ano de 1845. Logo depois começaria a construir uma pequena casa às margens do lago Walden, um lugar isolado e selvagem.

Thoreau (1817 -1862) queria sair da vida rotineira para viver da maneira mais simples possível. Sua intenção era acuar a vida num canto e reduzi-la aos seus elementos mais simples: "Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, e vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido. Não queria viver o que não era vida, tão caro é viver; e tampouco queria praticar a resignação, a menos que fosse absolutamente necessário. Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor e de forma tão espartana que eliminasse tudo o que não fosse vida."
A partir dessa experiência que durou pouco mais de dois anos, Thoreau escreveu um dos clássicos da literatura universal: "Walden". A obra, escrita no período em que viveu isolado na cabana, abrange tanto uma leitura da natureza em estado selvagem quanto uma leitura filosófica da condição humana. Elabora um inventário de plantas e bichos acompanhando a mudança das estações e, ao mesmo tempo, uma análise do ser humano em suas necessidades essenciais e supérfluas, bem como suas aspirações morais.
Publicada originalmente em 1854, "Walden" possui várias edições em língua portuguesa, a mais recente publicada pela editora L&PM. As mudanças propostas por Thoreau, sempre através da ação, influenciaram gerações e gerações até os dias atuais. Logo nas primeiras páginas da obra, ele anota: "Aos velhos o que é dos velhos, aos novos o que é dos novos". Logo em seguida deixa claro que "a vida que os homens louvam e consideram bem-sucedida é apenas um tipo de vida".
Ermitão estóico e austero, Thoreau foi o criador daquilo que conhecemos hoje como desobediência civil, a forma mais pacífica e eficiente de ação individual no enfrentamento do poder. Uma ideia que nasceu em 1846, quando Thoreau foi preso por se recusar pagar seus impostos para o governo dos Estados Unidos.
Seu argumento era simples: o imposto que pagava estava sendo utilizado pelo governo para financiar a escravidão dos negros e a guerra contra o México. Com seu dinheiro dos impostos o governo estava financiando duas coisas que era completamente contra: a escravidão e a guerra.
Após algumas temporadas na cadeira, escreveu o ensaio "A Desobediência Civil", publicado originalmente em 1849. O livro recebeu várias edições em língua portuguesa, a mais recente foi publicada pela editora Penguin em parceria com a Companhia das Letras. A obra expõe uma série de argumentos que sustentam a ação do autor em se recusar a cumprir uma lei que, por interesses políticos e econômicos, desumanizava o país: "A lei nunca tornou os homens nem um pouquinho mais justos, e devido ao respeito que têm por ela, mesmo os bem intencionados tornam-se no dia a dia agentes da injustiça."
Segundo a lenda, "A Desobediência Civil" chegou até as mãos do escritor russo Liev Tolstói (1828 - 1910) que o entregou nas mãos do pacifista indiano Mahatma Gandhi (1869 - 1948). A partir da ideia de Thoreau, Gandhi aprimorou seu conceito de Satyagraha (princípio de protesto não violento) para o movimento de independência da Índia frente ao Império Britânico. E Gandhi teria entregue nas mãos do ativista norte-americano Martin Luther King (1929 - 1968) o mesmo texto de Thoreau. A partir da ideia de Thoreau, Luther King aprimorou a luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos utilizando as ferramentas da não violência na desobediência civil.
A melhor biografia de H. D. Thoreau pode ser encontrada nas palavras de seu amigo e pensador Ralfh Waldo Emerson (1803 - 1882): "Thoreau nunca se formou em nenhuma profissão; nunca se casou; vivia sozinho; nunca ia à igreja; nunca votou; recusou-se a pagar impostos ao Estado; não comia carne; não tomava vinho; nunca usou tabaco; embora estudasse a Natureza, não utilizava armas nem armadilhas. Sua escolha, certamente sábia como ele, foi ser o cavaleiro solitário a serviço da mente e da Natureza. Não tinha talento para a riqueza, e sabia ser pobre sem qualquer ponta de deselegância ou sordidez."
Um ano novo pode ser apenas a velha ideia de que toda mudança é feita de boas intenções. Como todos sabem, mudanças não acontecem apenas através de intenções. Mudanças são sempre realizadas através de ações. E segundo as palavras de Thoreau, "árvores mortas amam o fogo".
Serviço:
"Walden"
Autor - Henry David Thoreau
Editora - L&PM
Tradução - Denise Bottmann
Páginas - 336
Quanto - R$ 26,90

"A Desobediência Civil"
Autor - Henry David Thoreau
Editora - Penguin
Tradução - José Geraldo Couto
Páginas - 152
Quanto - R$ 22,90
FRAGMENTO
"Vivemos mesquinhamente. É erro obre erro, remendo sobre remendo. A nossa melhor virtude tem como causa uma miséria supérflua e desnecessária. Nossa vida se perde no detalhe. Um homem honesto dificilmente precisaria contar além dos dez dedos das mãos, ou, em casos extremos, ele pode acrescentar os dez dedos dos pés, e juntar todo o resto numa coisa só. Simplicidade, simplicidade, simplicidade! E digo: tenham dois ou três afazeres, e não cem ou mil; em vez de um milhão. Contem meia dúzia, e tenham contas tão diminutas que possam ser registradas na ponta do polegar. Em meio ao oceano encapelado da vida civilizada, são tantas nuvens, as tormentas, as areias movediças, os mil e um pontos a se levar em consideração, que um homem, se não quiser naufragar e ir ao fundo sem jamais atingir seu porto, tem de avegar por cálculo e, para consegui-lo, precisa ser realmente bom de cálculo. Simplifiquem, simplifiquem.
(Fragmento de "Walden", de Henry David Thoreau)
Foto: Reprodução/Thoreau Institute


