As várias facetas do palhaço
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quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Flavia Guerra <br> Agência Estado 
São Paulo - Um típico trapaceiro, rabugento, antipático, malandro ao extremo, que não hesitava em dar em cima da mulher do próximo, que adorava dar pontapés e aplicar truques diversos nos mais distraídos. Assim era Carlitos, o célebre personagem criado por Charles Chaplin que superou seu próprio criador e adquiriu vida própria. Tão própria que foi até capaz de evoluir, mudar de personalidade e se tornar o solitário, melancólico e comovente vagabundo que comoveu o mundo com suas histórias nem sempre felizes, mas sempre hilárias.
''Poucos sabem que Carlitos nasceu em 1914, ainda na Keystone, o primeiro estúdio norte-americano em que Chaplin trabalhou. Foi só com o passar do tempo que ele deixou de ser antipático para se consolidar, finalmente, em Luzes da Cidade (1931) como o simpático vagabundo'', contou à reportagem o francês Sam Stourdzé, curador da exposição ''Chaplin e sua Imagem'', que está em cartaz no Instituto Tomie Ohtake e traz facetas até então pouco conhecidas do grande público de um dos maiores gênios da história do cinema.
Poderia se chamar de arqueologia contemporânea o trabalho que Stourdzé, um dos maiores especialistas quando o assunto é ''escavar'' a vida de Charles Chaplin, realizou - ele é diretor do Lausanne's Elysée Museum, na Suíça, onde o ator e diretor passou os últimos anos de sua vida, após ter sido impedido de retornar aos Estados Unidos durante uma viagem à Europa. Não por acaso, o Lausanne Museum é detentor de vasto acervo de imagens da vida pública e privada de Chaplin.
É parte deste acervo capaz de emocionar qualquer fã do artista que poderá ser visto pela primeira vez no Brasil. A exposição, que já passou por diversos países europeus, Estados Unidos e México, chega agora ao Brasil propondo uma interessante confrontação entre a figura pública e a pessoal de Charles Chaplin.
Na esfera pública, merece atenção especial a obsessão do ator em ''não ser cortado da cena''. ''Chaplin detestava ter suas cenas cortadas. Tanto que, com o tempo, aprendeu a fazer gags, movimentos e trejeitos que chamavam atenção do público e que, por fazerem rir, não poderiam ser cortadas'', comenta Stourdzé.
Primeira vez
Vale lembrar que esta é a primeira vez que Chaplin ganha uma exibição tão ampla e completa em museus pelo mundo. ''Já houve muitas mostras de filmes e até de fotografias, mas sempre em cinemas, festivais, cinematecas. A junção da obra de Chaplin com o acervo 'de atrás das câmeras' de sua carreira, construindo um diálogo entre os dois mundos, é inédita'', diz o curador, para quem cenas como o making of filmado por Sydney, irmão de Charles, durante as filmagens de ''O Grande Ditador'', no fim da década de 1930, é um dos grandes destaques da exposição.
As cenas, filmadas em cor, revelam a preparação para a cena do baile, em que Chaplin, como costumava fazer, não só ensaiava exaustivamente suas cenas e diálogos, como também as dos outros atores em cena. Ainda que curto, o trecho revela mais sobre a fama de meticuloso e extremamente controlador que Chaplin tinha. ''Ele tinha uma capacidade incrível de repetir, ensaiar, pensar, decupar, dirigir, atuar e até mesmo musicar seus filmes, de forma que tivesse o controle total de sua obra.''
Quem assistir a outros trechos em exposição no Instituto Tomie Ohtake poderá até ter a ilusão de que, como sempre fez parecer, muitas das cenas são fruto de acaso, improviso ou sorte de momento no set de filmagem, mas quem assistir a ''How To Make Movies'' (Como Fazer Filmes), de 1918, que permaneceu inédito por décadas, vai poder conhecer os bastidores dos Estúdios Chaplin. Mais que isso, vai poder entender que por trás de cada cena leve e despretensiosa das peripécias de Carlitos havia um sofisticado trabalho de pré-produção.
Memorável é o pôster que revela não o vagabundo, e nem mesmo Chaplin 'vestido de Carlitos', mas sim um Chaplin diretor, de echarpe e paletó, elegante e compenetrado feito um autêntico diretor da Nouvelle Vague, de olho no monitor e cercado por uma trupe enorme. A cena filmada não aparece em quadro, mas são os bastidores que revelam o quanto de suor havia por trás de cada cena genial de seus filmes.
Por falar em filmes, além das mais de 200 fotografias que compõem a exposição, são imperdíveis os filmes caseiros em cores, produzidos em 8mm, em que se pode ver cenas da vida de um Chaplin já idoso em seu exílio na Suíça, que aproveitava sua vida em família, mas jamais deixava de fazer suas graças na frente das câmeras. É nestes momentos que criador e criatura provam que nunca deixaram de ser um só.
Serviço
Chaplin e sua imagem
Onde - Instituto Tomie Ohtake (Av. Brigadeiro Faria Lima, 201, São Paulo Quando - de terça a domingo, das 11h às 20h. Até 27/11
Quanto - gratuito


