Há menos mistérios por trás da enigmática Maria Luisa Mendonça do que a mídia vem traçando e que acabaram a rotulando por suas personagens densas e conflituosas. Depois de estrear na tevê como uma hermafrodita (a Buba, de ‘‘Renascer’’), a atriz seguiu trilhando sua carreira com tipos que podem ser considerados não-convencionais. Agora, faz sua estréia no cinema, em ‘‘Coração Iluminado’’, de Hector Babenco, vivendo uma mulher não menos densa que as outras.
Depois de Buba, Maria Luisa foi a lésbica Letícia, na minissérie ‘‘Engraçadinha’’, depois a Vera, de ‘‘Explode Coração’’ uma mulher chique e aparentemente normal, mas que enlouqueceu no final e por fim a Amanda, de ‘‘Corpo Dourado’’, que com o desenrolar da história acabou se mostrando agressiva e obsessiva.
Mas o que essa jovem, mas já comprovadamente talentosa atriz quer é, aos 28 anos, se despir de qualquer rótulo. ‘‘O que mais queria nesse momento era interpretar uma heroína’’, confessa. ‘‘Daquelas bem reais, que você pode encontrar na rua.’’
Apesar disso, comemora ter entrado na televisão por seu talento e ousadia de assumir um papel difícil como a Buba. Tanto este como o de Letícia foram escolhidos por ela, fez testes para ganhá-los. Por acaso, foram dois tipos estranhos.
Ela assume que se entrega por inteiro aos personagens e que talvez seja pela coragem e intensidade com que assume tais tipos que tenha sido rotulada pela estranheza deles.
Para interpretar a argentina Ana, em ‘‘Coração Iluminado’’, a atriz aprendeu a falar espanhol e tirou inspiração até do móbile que fica pendurado sobre o berço da filha Júlia, de uma ano e oito meses. ‘‘Inspirei-me nas cores e nos movimentos das figuras de Matisse para compor Ana, que também enlouquece no final, mas que, como as figuras, tem uma cor diferente em cada cena.’’
Ela foi convidada por Xuxa Lopes, esposa de Hector Babenco e também atriz do filme, porque ‘‘ela leu o personagem e achou perfeito para mim. Xuxa é a minha madrinha nesse trabalho.’’ A intensidade de seus personagens também se fez presente em ‘‘Coração Iluminado’’. Ela assume que a Ana nasceu argentina e que não saberia interpretá-la em português.
Mas nem de Ana, nem de Buba, Letícia ou Amanda, Maria Luisa herdou qualquer característica. ‘‘Sou calma, boa, serena e não tenho nada de louca’’, diz. ‘‘Adoro ser mãe, sou muito bem casada, adoro ficar em casa e brincar com a Júlia.’’
A maternidade foi um fator que mexeu bastante com a atriz. Ela tem dificuldade quando tenta expressar o que significou ser mãe, mas garante que acrescentou muito em tudo que faz, como mulher e como atriz. ‘‘Minha vida tomou uma dimensão que não tinha. De repente tinha mais alguém me esperando em casa quando eu voltava.’’
Na televisão, continua contratada pela Globo mas não tem nenhum papel definido para os próximos meses. Enquanto isso, aceitou o convite de Beatriz Segall para encenar a peça ‘‘Ponto deVista’’, de David Hare, com o início dos ensaios previsto para janeiro do próximo ano.

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