As várias artes de Júlia
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quinta-feira, 20 de maio de 1999
Jackeline Seglin 
Atravessando a etapa que pode ser considerada uma das melhores fases de sua carreira, a atriz Julia Lemmertz vem colhendo os resultados de anos de trabalho. Além de integrar o elenco da novela global Andando nas Nuvens, esta gaúcha de 35 anos também está nas telas dos cinemas brasileiros em várias produções, entre as quais, A Hora Mágica, filme de Guilherme de Almeida Prado que foi lançado anteontem em Londrina, com a presença da atriz e do diretor. O evento Sessão Brasil, que objetiva lançar na cidade produções cinematográficas brasileiras, pretende trazer ainda mais quatro filmes este ano.
Em entrevista à Folha 2, Julia Lemmertz falou do momento que sua carreira atravessa, dos filmes e novos projetos. Atualmente, a atriz está em cartaz nos cinemas brasileiros com Tiradentes, de Oswaldo Caldeira, e Um Copo de Cólera, que deve estrear em Londrina na semana que vem. Na segunda-feira, estréia em São Paulo seu mais recente trabalho, Até que a Vida Nos Separe, do publicitário José Zaragoza.
Há 18 anos Julia Lemmertz divide seu tempo entre os palcos, a televisão e o cinema. E já fez de tudo um pouco. Novelas como Guerra Sem Fim, da Manchete, e Zazá, da Globo; filmes como Jenipapo, de Mônica Goldemberg, e peças como Hamlet e As Três Irmãs. Mas o início de tudo foi meio imprevisível, já que a vontade de Lemmertz na época era cursar Veterinária e cuidar cavalos no Rio Grande do Sul. A seguir, trechos da entrevista que ela concedeu à Folha2:
Você acredita estar passando pela melhor fase de sua carreira?
É um lindo momento, muito bacana, de trabalhos variados que eu gosto muito. É um momento feliz. Agora, essa coisa de ser o melhor... eu fico meio assim de falar porque a gente não sabe o que vai vir pela frente. Eu já tive outros momentos legais. Eu trabalhei muito pra isso; esse momento não veio à toa. É uma coisa de um tempo de trabalho, de um investimento, de uma batalha que já vem de muitos anos.
Cinema. Depois de altos e baixos, você acha que com o sucesso de Central do Brasil as pessoas estão aprendendo a se interessar novamente por produções brasileiras?
Com certeza. Eu acho que o sucesso do Central se deve muito ao fato de ser realmente um filme lindo, que foi muito bem lançado, bem divulgado, que teve a sorte de ter uma grande corporação por trás. Mas eu acho que essa retomada já vem desde Carlota Joaquina e tantos outros filmes que foram feitos neste caminho. Isso faz com que as pessoas voltem a se interessar pelo cinema brasileiro.
O que você poderia dizer sobre sua atuação em A Hora Mágica?
É um filme delicioso. O Guilherme (de Almeida Prado) ficou anos pra fazer. Foi um trabalho em que eu me deixei levar pela idéia que o ele tinha. A minha personagem, Lúcia, começa o filme como uma moça simples, assistente de rádio, desglamourizada. Ela se apaixona pela voz de um ator de rádio-novela, que é o Raul Gazolla que faz. Ele só faz o papel de vilão e nunca recebe cartas. Até que um dia ela escreve pra ele uma carta linda e ingênua pedindo pra marcar um encontro. Profundamente solitário, ele idealiza a mulher. Num segundo momento, ele vai apresentando a ela o mundo da rádio-novela e ela vai se encantando e se apaixona, vira uma história de amor, até que ela acaba virando uma atriz glamourosa.
E como foi seu trabalho em Um Copo de Cólera, que acaba de estrear no Rio e em São Paulo?
É um filme bem diferente de A Hora Mágica. O Copo é baseado numa obra do Raduan Nassar, um autor brasileiro que escreveu só três livros e se retirou da literatura. Agora suas obras voltaram de uma forma engraçada, meio que por sincronicidade. O Aluízio (Abranches, o diretor) pensou neste projeto há quatro anos. O Luiz Fernando Carvalho também pegou o outro livro, Lavoura Arcaica, e fez. É interessante isso, porque é um autor brilhante, muito interessante, perturbador de se ler. Transpor um livro dele para o cinema é tão difícil quanto fazer um Shakespeare, um Guimarães Rosa.
Por que?
Porque é extremamente literário. As palavras têm uma outra métrica, não é cotidiano. É a discussão de um casal que tem uma briga por causa do nada, que vira uma discussão filosófica e política interessantíssima, mas que é muito forte na leitura. Agora, você vendo e ouvindo tem a imagem de tudo aquilo, que é muito bonita, e tem as palavras que são exatamente as palavras que tão no livro. Então essa transposição é muito delicada porque causa um certo estranhamento.
Vocês chegaram a conversar com Raduan?
O Aluizio ficou amigo dele antes. Mas a gente só foi conversar com ele depois das filmagens, na época do lançamanto. É uma figura adorável. Plantador de feijão, de milho. É interessante observar como ele tem a mesma paixão pela plantação, colheita, como ele tinha em escrever as palavras que ele ia escrever.
Dos quatro últimos filmes que fez, você considera Um Copo... o mais difícil?
Foi sem dúvida uma lenha fazer esse filme. Foi arriscado em todos os sentidos. Um ato de coragem, não só do Aluízio, de transpor o livro na íntegra. É lindo e eu me sinto grata por esse projeto ter vindo parar nas minhas mãos, por eu ter tido coragem de fazer. Sinto que é uma conquista, uma certa maioridade. É um filme muito bonito e poético. Violento nas palavras e poético nas imagens.
Atualmente você está no elenco de mais uma novela do Globo, Andando nas Nuvens...
Eu estava um tempo sem fazer novela e fui convocada - eu tenho um contrato com a tevê. Pela primeira vez peguei um trabalho na televisão sem a menor idéia do que eu ia fazer. Apostei muito no que o texto tinha como direção e na brincadeira, numa coisa meio sem-vergonha. Entrei para jogar. E dei a sorte de ter a Nicete Bruno comigo, uma atriz maravalihosa que me passa confiança e me dá o prazer de contracenar. Levei a coisa para o lado do humor, como eu nunca fiz. A personagem tem um lado destrambelhado, a ficha dela nunca cai, ela não ouve muito as outras pessoas... Eu tentei fazer uma coisa mais de ficção, mais louca. E encaro cada cena como uma cena, como se fosse um esquete.
E os próximos projetos?
Encerrei a temporada da peça As Três Irmãs - que infelizmente não veio pra cá, continuo viajando com A Hora Mágica nos lançamentos pelo Brasil, também estou lançando Um Copo de Cólera e tem ainda o filme do (José) Zaragoza, Até que a Vida nos Separe, que vai ser lançado dia 24 em São Paulo e dia 25 no Rio. Acho que tá bom. A televisão agora pra mim tá de bom tamanho. Quero lançar bem os filmes e poder acompanhar de perto, fazer debates e conversar com as pessoas que viram os filmes. Isso tudo faz parte.


