Atravessando a etapa que pode ser considerada uma das melhores fases de sua carreira, a atriz Julia Lemmertz vem colhendo os resultados de anos de trabalho. Além de integrar o elenco da novela global ‘‘Andando nas Nuvens’’, esta gaúcha de 35 anos também está nas telas dos cinemas brasileiros em várias produções, entre as quais, ‘‘A Hora Mágica’’, filme de Guilherme de Almeida Prado que foi lançado anteontem em Londrina, com a presença da atriz e do diretor. O evento Sessão Brasil, que objetiva lançar na cidade produções cinematográficas brasileiras, pretende trazer ainda mais quatro filmes este ano.
Em entrevista à Folha 2, Julia Lemmertz falou do momento que sua carreira atravessa, dos filmes e novos projetos. Atualmente, a atriz está em cartaz nos cinemas brasileiros com ‘‘Tiradentes’’, de Oswaldo Caldeira, e ‘‘Um Copo de Cólera’’, que deve estrear em Londrina na semana que vem. Na segunda-feira, estréia em São Paulo seu mais recente trabalho, ‘‘Até que a Vida Nos Separe’’, do publicitário José Zaragoza.
Há 18 anos Julia Lemmertz divide seu tempo entre os palcos, a televisão e o cinema. E já fez de tudo um pouco. Novelas como ‘‘Guerra Sem Fim’’, da Manchete, e ‘‘Zazᒒ, da Globo; filmes como ‘‘Jenipapo’’, de Mônica Goldemberg, e peças como ‘‘Hamlet’’ e ‘‘As Três Irmãs’’. Mas o início de tudo foi meio imprevisível, já que a vontade de Lemmertz na época era cursar Veterinária e cuidar cavalos no Rio Grande do Sul. A seguir, trechos da entrevista que ela concedeu à Folha2:
Você acredita estar passando pela melhor fase de sua carreira?
É um lindo momento, muito bacana, de trabalhos variados que eu gosto muito. É um momento feliz. Agora, essa coisa de ser o melhor... eu fico meio assim de falar porque a gente não sabe o que vai vir pela frente. Eu já tive outros momentos legais. Eu trabalhei muito pra isso; esse momento não veio à toa. É uma coisa de um tempo de trabalho, de um investimento, de uma batalha que já vem de muitos anos.
Cinema. Depois de altos e baixos, você acha que com o sucesso de ‘‘Central do Brasil’’ as pessoas estão aprendendo a se interessar novamente por produções brasileiras?
Com certeza. Eu acho que o sucesso do ‘‘Central’’ se deve muito ao fato de ser realmente um filme lindo, que foi muito bem lançado, bem divulgado, que teve a sorte de ter uma grande corporação por trás. Mas eu acho que essa retomada já vem desde ‘‘Carlota Joaquina’’ e tantos outros filmes que foram feitos neste caminho. Isso faz com que as pessoas voltem a se interessar pelo cinema brasileiro.
O que você poderia dizer sobre sua atuação em ‘‘A Hora Mágica’’?
É um filme delicioso. O Guilherme (de Almeida Prado) ficou anos pra fazer. Foi um trabalho em que eu me deixei levar pela idéia que o ele tinha. A minha personagem, Lúcia, começa o filme como uma moça simples, assistente de rádio, desglamourizada. Ela se apaixona pela voz de um ator de rádio-novela, que é o Raul Gazolla que faz. Ele só faz o papel de vilão e nunca recebe cartas. Até que um dia ela escreve pra ele uma carta linda e ingênua pedindo pra marcar um encontro. Profundamente solitário, ele idealiza a mulher. Num segundo momento, ele vai apresentando a ela o mundo da rádio-novela e ela vai se encantando e se apaixona, vira uma história de amor, até que ela acaba virando uma atriz glamourosa.
E como foi seu trabalho em ‘‘Um Copo de Cólera’’, que acaba de estrear no Rio e em São Paulo?
É um filme bem diferente de ‘‘A Hora Mágica’’. O ‘‘Copo’’ é baseado numa obra do Raduan Nassar, um autor brasileiro que escreveu só três livros e se retirou da literatura. Agora suas obras voltaram de uma forma engraçada, meio que por sincronicidade. O Aluízio (Abranches, o diretor) pensou neste projeto há quatro anos. O Luiz Fernando Carvalho também pegou o outro livro, ‘‘Lavoura Arcaica’’, e fez. É interessante isso, porque é um autor brilhante, muito interessante, perturbador de se ler. Transpor um livro dele para o cinema é tão difícil quanto fazer um Shakespeare, um Guimarães Rosa.
Por que?
Porque é extremamente literário. As palavras têm uma outra métrica, não é cotidiano. É a discussão de um casal que tem uma briga por causa do nada, que vira uma discussão filosófica e política interessantíssima, mas que é muito forte na leitura. Agora, você vendo e ouvindo tem a imagem de tudo aquilo, que é muito bonita, e tem as palavras que são exatamente as palavras que tão no livro. Então essa transposição é muito delicada porque causa um certo estranhamento.
Vocês chegaram a conversar com Raduan?
O Aluizio ficou amigo dele antes. Mas a gente só foi conversar com ele depois das filmagens, na época do lançamanto. É uma figura adorável. Plantador de feijão, de milho. É interessante observar como ele tem a mesma paixão pela plantação, colheita, como ele tinha em escrever as palavras que ele ia escrever.
Dos quatro últimos filmes que fez, você considera ‘‘Um Copo...’’ o mais difícil?
Foi sem dúvida uma lenha fazer esse filme. Foi arriscado em todos os sentidos. Um ato de coragem, não só do Aluízio, de transpor o livro na íntegra. É lindo e eu me sinto grata por esse projeto ter vindo parar nas minhas mãos, por eu ter tido coragem de fazer. Sinto que é uma conquista, uma certa maioridade. É um filme muito bonito e poético. Violento nas palavras e poético nas imagens.
Atualmente você está no elenco de mais uma novela do Globo, ‘‘Andando nas Nuvens’’...
Eu estava um tempo sem fazer novela e fui convocada - eu tenho um contrato com a tevê. Pela primeira vez peguei um trabalho na televisão sem a menor idéia do que eu ia fazer. Apostei muito no que o texto tinha como direção e na brincadeira, numa coisa meio sem-vergonha. Entrei para jogar. E dei a sorte de ter a Nicete Bruno comigo, uma atriz maravalihosa que me passa confiança e me dá o prazer de contracenar. Levei a coisa para o lado do humor, como eu nunca fiz. A personagem tem um lado destrambelhado, a ficha dela nunca cai, ela não ouve muito as outras pessoas... Eu tentei fazer uma coisa mais de ficção, mais louca. E encaro cada cena como uma cena, como se fosse um esquete.
E os próximos projetos?
Encerrei a temporada da peça ‘‘As Três Irmãs’’ - que infelizmente não veio pra cá, continuo viajando com ‘‘A Hora Mágica’’ nos lançamentos pelo Brasil, também estou lançando ‘‘Um Copo de Cólera’’ e tem ainda o filme do (José) Zaragoza, ‘‘Até que a Vida nos Separe’’, que vai ser lançado dia 24 em São Paulo e dia 25 no Rio. Acho que tá bom. A televisão agora pra mim tá de bom tamanho. Quero lançar bem os filmes e poder acompanhar de perto, fazer debates e conversar com as pessoas que viram os filmes. Isso tudo faz parte.

mockup