As unhas da realidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de janeiro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Até pouco tempo atrás, para conhecer a obra do contista Rubem Fonseca de modo abrangente, o leitor precisava ter nas mãos seus 11 livros do gênero. Agora, com um único volume, é possível realizar a mesma viagem. Isso graças ao lançamento da antologia ''64 Contos de Rubem Fonseca'' pela Editora Companhia das Letras.
O volume traz as melhores narrativas do autor, de seu primeiro livro publicado, ''Os Prisioneiros'' (1963), ao mais recente ''Pequenas Criaturas'' (2002). Oferece um amplo mapa do desenvolvimento de uma literatura produzida ao longo de 40 anos pelas mãos daquele que é reconhecido, no país e fora dele, como um dos maiores criadores da literatura brasileira contemporânea.
Selecionados pelo próprio Fonseca, os textos de ''64 Contos...'' são apresentados na ordem cronológica dos livros em que foram publicados originalmente. Essa sequência revela um painel da depuração da linguagem utilizada pelo escritor, bem como a transformação dos temas focalizados.
Um dos aspectos perceptíveis é justamente a transformação temática dos contos. Numa primeira fase, em seus primeiros escritos, Fonseca trabalha com as tragédias individuais do cotidiano. Numa segunda etapa, a violência urbana ocupa o espaço das tragédias individuais. O universo criminal e policial também ganha lugar de destaque nesse território. Numa terceira fase, aquela que está hoje em vigor, a temática sexual entra com os dois pés na porta principal e estabelece seu império.
Independente da natureza dos temas, a perversidade sempre se faz presente. Quando se trata de violência, ela se manifesta tanto num marginal de favela como num burguês de condomínio fechado. Ambos os pólos possuem a frieza de instaurar a barbárie sem nenhuma espécie de pudor. Quando se trata de satisfação sexual, o prazer é perseguido como um fim em si mesmo. Um prazer perseguido a qualquer custo, fazendo uso de indistintos meios para atingir seu objetivo.
Uma das características dos contos de Rubem Fonseca é a total ausência de sentimentalismo. Os fatos são crus e diretos. As descrições curtas e telegráficas. Os personagens não são regidos nem por uma moral civilizatória, muito menos por uma moral divina. Vivem suspensos por uma espécie de beco sem saída onde seguem apenas seus impulsos mais imediatos. Vivem sob os acordes de uma única melodia, sob as notas de um eterno ''saciar-se e saciar-se e saciar-se''.
Fonseca já recebeu quatro prêmios Jabuti. Publicado em vários países, no ano passado foi agraciado com Prêmio Camões e o Prêmio de Literatura Latino-Americana e do Caribe Juan Rulfo, duas representativas coroações internacionais. Mesmo consagrado, não perdeu o espírito da provocação. Além da latente perversidade, vem espalhando em seus textos elementos embebidos no bizarro da realidade.
Vale notar que essas provocações nunca são vazias, desprovidas de intenções. Ela são utilizadas para revelar um agudo vazio humano, completamente carente de recheio. Um vazio contemporâneo que instaura a normalidade onde tudo é permitido, inclusive menosprezar as afiadas unhas da realidade alheia.
''64 Contos de Rubem Fonseca'', pela sua abrangência, pode ser o livro ideal para ser colocado na mala de férias. Uma literatura que pode até divertir, mas não deixa de incomodar.
Serviço:
- 64 Contos de Rubem Fonseca. Editora Companhia das Letras, seleção de Rubem Fonseca, introdução de Tomás Eloy Martinez, 800 páginas, R$ 43,50.


