Marcos Losnak Especial para a Folha2
A morte é uma pedra no sapato das pessoas. Uma enorme pedra, ou um minúsculo pedregulho. Nem mesmo o escritor Charles Bukowski (1920 - 1994) ficou imune a essa sensação. No fim da vida, passava os dias tirando os sapatos tentando encontrar a pedra. Encontrou no ato de escrever, a maneira mais sensata de seguir andando, mancando de vez em quando: ‘‘Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte.’’
Nos últimos quatro anos de vida, Charles Bukowski manteve um diário em que registrava seu cotidiano e sua desesperança com a humanidade. Deslumbrado com o computador, fazia do ato de escrever sua razão de permanecer vivo, disparando farpas em todas as direções. Algumas pessoas podem pensar que Bukowski não seria o tipo de gente capaz de sentar e escrever um diário, mas ele mesmo, em seu inconfundível estilo, responde: ‘‘Acho que as pessoas que têm cadernos e anotam seus pensamentos são umas cretinas. Só estou fazendo isso porque alguém sugeriu que eu o fizesse. Como você vê, não sou nem um cretino original. Mas isso, de alguma forma, faz com que seja mais fácil. Só deixo rolar. Como um bosta quente ladeira abaixo.’’
Publicado nos Estado Unidos no ano passado, com desenhos de Robert Crumb, o diário de Bukowski ganha agora sua edição brasileira, ‘‘O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomavam Conta do Navio’’, lançada pela Editora L&PM. Traz trechos escritos entre 1991 e 1993, onde o escritor se mostra profundamente existencial em relação ao mundo e filosófico em relação à literatura.
Dono de um estilo ágil e desbocado, passou a última etapa de sua vida morando com a esposa numa casa com piscina, banheira de hidromassagem e nove gatos. Não suportando mais a convivência humana, passava grande parte do tempo isolado, fechado no quarto, escrevendo e ouvindo música clássica. Esse isolamento voluntário era quebrado com suas rotineiras visitas ao hipódromo, para apostar nas corridas de cavalos. As lendárias e diárias bebedeiras ficaram no passado.
Em suas palavras, o escritor deixa claro que a única coisa que o manteve vivo foi o ato de escrever: ‘‘Escrever é quando vôo, escrever é quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte de meu bolso esquerdo, atiro-a contra a parede e a pego de volta quando rebate.’’

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