As tramas da inveja
Em seu novo livro, Francesco Alberoni investiga os mecanismos da inveja
A agulha que espeta sem que se saiba exatamente como e por que, a famosa e universal inveja é o tema do novo livro do sociólogo italiano Francesco Alberoni. Para o sociólogo, o sentimento de inveja nasce como qualquer outro sentimento, alterando nosso comportamento e relações. Mas ela só assume o peso da inveja quando as normas sociais mostram que este sentimento é condenável, despresível, não deve ser sentido, ou mais exatamente não deve expresso.
Em ‘‘Os Invejosos - Uma Investigação Sobre a Inveja na Sociedade Contemporânea’’, o autor assinala que todos nós desejamos o que vemos, ser como o outro, ter os que os outros têm. Desde a infância aprendemos olhando nossos pais, nossos irmão, posteriormente nossos vizinhos, colegas, artistas, identificando-se com eles. ‘‘O desejo é uma energia fomentada pelo exterior’’. O problema tem início quando esses desejos encontram frustrações, algo inevitável. Como nem sempre conseguimos obter aquilo que obtiveram aqueles que nos serviram de modelos, somos obrigados a recuar. Este recuo assume várias formas, raiva, ódio, tristeza, renuncia. ‘‘Ou, então, de rejeição do modelo a qual havíamos nos identificado. Para repelir o desejo, repelimos a pessoa que o provocou, desvalorizando-a, desmerecendo-a, dizendo que não vale nada. Esta é a primeira raiz da inveja.’’
Para Alberoni, a segunda raiz é encontrada na exigência de julgar: ‘‘Para saber o quanto valemos, comparamo-nos com qualquer outra pessoa, com quem nos superou em alguma coisa ou com quem deixamos para trás’’. Tudo é comparação. Queremos ser os melhores, superiores, admirados, e este confronto não aponta para um fim. ‘‘A energia global é o produto desta força ascensorial, desta propulsão comparativa’’.
Se por uma série de motivos não conseguimos chegar aos desejos, se a comparação nos é desfavorável, fatalmente nos sentimos diminuídos, sem valor. O passo seguinte é procurar proteger nosso valor, que pode ser feito de várias formas, seja renunciando às nossas metas, seja ficando indiferentes ou desvalorizando o modelo. Este último caso funciona como um ato de defesa. ‘‘Este mecanismo de defesa, esta tentativa de proteger-nos através do ato de desvalorização, é a inveja’’. A inveja é um ato de defesa.
O autor Francesco Alberoni, professor de sociologia na Universidade de Milão, há muito tempo pesquisa os sentimentos humanos nos movimentos coletivos. Partindo de sentimentos íntimos procura investigar suas relações com o social. Entre seus livros publicados no Brasil estão a trilogia ‘‘Enamoramento e Amor’’, ‘‘O Erotismo’’ e ‘‘A Amizade’’, que se tornou famosa em vários países. Há outras obras de Alberoni publicadas, todas pela Editora Rocco: ‘‘O Vôo Nupcial’’, ‘‘Gênese’’ e ‘‘O Altruísmo e a Moral’’.
Alberoni também é um dos responsáveis do projeto ‘‘You and Me’’, um laboratório de comunicação que pesquisa as estruturas comunicacionais dos jovens que pode ser acionado pelo endereço http://www.omnitel.it/alberoni.htm na internet.
(M.L.)
q Os Invejosos - Uma Investigação Sobre a Inveja na Sociedade Contemporânea - de Francesco Alberoni, Editora Rocco, tradução de Elia Edel, 186 páginas, R$ 24,00.

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