As tiras que marcaram uma geração
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quarta-feira, 27 de novembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A galeria de personagens de Angeli povoa as páginas do livro ''Fantasias e Cotidiano nas Histórias em Quadrinhos''. Rê Bordosa, quem diria, virou objeto de pesquisa acadêmica ao lado de Bob Cuspe, os Skrotinhos, Meiaoito, Nanico e Wood & Stock.
O livro, de autoria do pernambucano Nadison Manoel da Silva, acaba de sair pela coleção Outros Diálogos da editora Annablume. A capa é feinha, mas o assunto tratado ao longo das 141 páginas talvez estimule algumas reflexões sobre a produção brasileira recente de HQs.
Nadison elege como tema de estudo a revista ''Chiclete com Banana'', publicada na década de 80 pelo cartunista paulistano Angeli. O volume aprofunda a análise desenvolvida pelo autor na monografia para conclusão do curso de ciências sociais, apresentada em 1992 sob o título ''Chiclete com Banana: quadrinhos, juventude e sedução''.
Segundo ele, a revista representou um marco no quadrinho nacional, tanto em termos de mercado como de linguagem e estilo. Nadison lembra que, antes da Chiclete, nenhuma outra publicação havia atingido a tiragem de 100 mil exemplares. Graças ao fenômeno de vendas, a minúscula Circo Editoral pode lançar outros títulos também bem-sucedidos, como o ''Geraldão'' de Glauco e ''Piratas do Tietê'' de Laerte.
O sucesso impulsionou ainda o lançamento de gibis estrangeiros por editoras de grande porte como a Abril e a Globo. Para o autor, a Chiclete com Banana trouxe influências do quadrinho underground norte-americano, adaptando-as aos novos tempos. Angeli anota ''procurava manter viva a idéia de contracultura através do discurso das personagens e de textos da revista, trabalhando com desejos de oposição ao status quo e se aproximando da realidade de seu público jovem urbano''.
Ao levantar o perfil dos célebres personagens criados pelo cartunista, ele flagra a expressão das diversas fantasias elaboradas pela juventude brasileira da época. Bob Cuspe escreve ''se prendia a valores punks e lutava para que alguma coisa mudasse ou que ao menos as pessoas tomassem consciência da situação calamitosa que os espera''. Já os Skrotinhos explica não defendem ou incorporam qualquer valor. ''Eles são amorais, cínicos. Adotam uma postura semelhante a uma atitude narcísica na medida em que estão apenas preocupados com o seu prazer, que é conseguido através da humilhação do outro. Eles se utilizam do mundo como um briquedo que a qualquer momento deve estar disponível para suas brincadeiras''.
A cada um dos personagens, o autor dedica um capítulo. O volume traz ainda uma investigação sobre as histórias em quadrinhos desde suas origens, lembrando o surgimento dos segmentos adulto e alternativo, a censura sofrida pelo gênero a partir da década de 50 e o boom dos anos 80. Para quem nunca ouviu falar do autor, vai aí um breve currículo.
Ele é bacharel e mestre em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Concluiu tese em comunicação pela University of Westminster, em Londres. Atualmente trabalha como professor e pesquisador do Departamento de Comunicação Social da Unicap, em Recife. O livro chega às prateleiras a R$ 20,00.
Serviço: Livro ''Fantasias e Cotidiano nas Histórias em Quadrinhos. Autor: Nadilson Manoel da Silva. Editora: Annablume (tel. 11/38150-998). Preço: R$ 20,00.


