A ditadura militar, instaurada no país pelo golpe militar de 31 de março de 1964, não foi apenas um assunto histórico e político. Foi também um assunto cultural que determinou a arte produzida no Brasil. Música, teatro e literatura foram linguagens que mais refletiram os acontecimentos.
A literatura em particular, gerou obras e autores que determinaram os caminhos da literatura brasileira. A editora Geração Editorial está lançando uma antologia de contos que procura revelar a ditadura militar segundo o olhar de escritores brasileiros. Organizado por Luiz Ruffato, "Nos Idos de Março" reúne narrativas de 18 autores, entre eles figuras consagradas como Antonio Callado, Roberto Drummond, Ignácio de Loyola Brandão, Nélida Piñon, Sérgio Sant’Anna, João Gilberto Noll, Domingos Pellegrini e Wander Piroli.
O escritor mineiro Luiz Ruffato, que se tornou um profícuo organizador de antologias de literatura brasileira, no prefácio do livro não oferece nenhuma dica sobre seus critérios de escolhas. No texto que abre o volume, intitulado "Breve História do Autoritarismo Brasileiro", traça apenas um panorama de como acontecimentos políticos pautados pelo autoritarismo influenciaram a literatura brasileira. Da proclamação da república ao regime militar.
Como toda e qualquer antologia, o leitor pode ficar tentando entender o motivo de tal autor, ou tal texto, se fazer presente enquanto outro não. O que parece claro é que Luiz Ruffato optou por oferecer um retrato diverso, inclusive no campo da linguagem, fatalmente sujeito a alguns furos.
Os contos de "Nos Idos de Março" são majoritariamente de autoria de escritores que viveram sob o regime militar e, mais do que isso, escreveram obras durante o regime. Os seja, aqueles que transformaram em literatura os acontecimentos no momento em os fatos estavam rolando. Os dois únicos autores presentes na antologia que fogem a essa regra são Fernando Bonassi, que durante a ditadura era uma criança, e Paloma Vidal, que nem tinha nascido na época.
O fato é que grande parte da literatura produzida durante, ou logo após o regime militar, tinha cunho engajado. Seja sob cunho panfletário, interesses ideológicos ou simplesmente enquanto denúncia, muita coisa ficou inconsistente enquanto literatura. O organizador teve o bom senso em não optar totalmente por esse tipo de texto em sua seleção.
Em "Nos Idos de Março" há contos que focalizam diretamente os acontecimentos com realismo. Também há contos de que não apontam diretamente para os fatos, mas para amplitude dos fatos no cotidiano das pessoas.
Nessa direção merece destaque alguns textos, entre eles "A Maior Ponte do Mundo", de Domingos Pellegrini. Conto publicado originalmente em 1977 no livro "O Homem Vermelho", narra a construção da ponte Rio-Niterói durante o regime militar a partir da visão de um operário da obra.
Outro texto que segue direção semelhante é "Os Camaradas", de Wander Piroli, escrito em 1973. Narra a aventura de sujeito que, por ordens da mãe, leva um frango assado para um colega de trabalho que encontra-se preso. De uma ingênua visita, a situação ganha proporções bizarras e absurdas.
Merece destaque também "Dois Cabeludos Num Jipe Amarelo", de Luiz Roberto Guedes, que narra uma geral policial que dois jovens levam quando estão voltando para a casa após uma viagem maluca durante um feriado de carnaval.
A literatura é fruto de uma época. Por isso tende a retratar os fatos que passam pelos olhos dos escritores. Os fatos em si não são literatura. A linguagem, que potencializa os acontecimentos em subjetividade, é o elemento que transforma realidade em literatura, fato em ficção. Uma sutileza que "Nos Idos de Março" revela é a de que a experimentação de linguagem fazia parte da literatura produzida durante o regime militar. Uma experimentação que nos dias de hoje tornou-se tímida e acanhada.

Serviço:
"Nos Idos de Março – A Ditadura Militar na Voz de 18 Autores Brasileiros"
Organização – Luiz Ruffato
Contos – Antonio Callado, Wander Piroli, Roberto Drummond, Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Angelo, Nélida Piñon, Sérgio Sant’Anna, Flávio Moreira da Costa, Frei Betto, João Gilberto Noll, Maria José Silveira, Roniwalter Jatobá, Domingos Pellegrini, Luiz Fernando Imediato, Luiz Roberto Guedes, Julio Cesar Monteiro Martins, Fernando Bonassi e Paloma Vidal
Páginas – 288
Quanto – R$ 29,90

- Deixe-me ver. Você e o Dr. Mário eram colegas e agora você veio aqui, com esse embrulho e que falar com ele. Certo? - Mamãe preparou pra ele – informou o rapaz. - Ah, que dizer que sua mãe então é do esquema? - Não, não, por favor. - Ela não fez o prato? - Fez sim, mas ela nunca viu o Mário. Eu que falei com ela tinha um colega do banco que estava... - Certo, certo. Você ia dizendo estava? - Está aqui – corrige o rapaz. - Certo, continue. - Nós estávamos comendo hoje na mesa e então mamãe lembrou. Foi só isso. Mamãe fez um prato e eu vim trazer. - Bem – o gordo se mexe na poltrona, faz menção de cruzar as pernas, desiste. – Mas tem um problema. O Dr. Mário não pode receber visitas. - Se o senhor não se incomoda - apressa-se o rapaz -, eu posso deixar o embrulho. O gordo enfia o cigarro entre os lábios, mas não acende – o isqueiro minúsculo na mão inchada, cabeluda. Os olhos obesos fixam ora no embrulho, ora no rosto aflito do rapaz. - Eu vim mais pra trazer, se o Senhor... - Certo, afinal hoje é um dia importante. Natal, certo? - Sim Senhor. - Vamos ver, aproxime-se. O rapaz dá um passo à frente. - Você agora abre o embrulho. Afobado, o rapaz começa a desatar barbante. - Pode colocá-lo aqui na poltrona. O rapaz agacha-se, tira o barbante que cobre o papel gorduroso. O gordo procura saborear o cheiro do frango assado, sorri. (Fragmento do conto "Camaradas", de Wander Piroli, que integra a antologia "Nos Idos de Março", organizada por Luiz Ruffato)
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