Que impacto têm as memórias nas pessoas que nos tornamos e qual é a sensação de rever momentos importantes de nossa história pela ótica de quem somos hoje? Essas perguntas fazem parte da reflexão que transformou um registro fotográfico em uma espécie de teatro-documentário bem-humorado. A montagem ''Obsceno Eu Público'' revela o passado de um ator em passagens cênicas que fazem ou fizeram parte das vidas de tantas outras pessoas. O espetáculo está em cartaz no Teatro José Maria Santos, em Curitiba.
A peça foi inspirada pelos negativos do fotógrafo Valdir Silva, que durante um bom tempo, a partir dos anos 70, registrou o teatro brasileiro, com destaque para os trabalhos realizados pela Companhia Estável de Repertório, de Antônio Fagundes, e pelo Teatro Guaíra. Foram acrescentados a esse ''álbum'' pequisas feitas pela equipe da diretora Giovana de Salles, que colheu textos e entrevistas de professores e atores de cada época.
O resultado é um monólogo de 25 cenas, que se revezam entre cômicas e dramáticas, protagonizadas pelo ator Mauro Zanatta, que revive cada um dos momentos a partir do texto da montagem e de suas próprias experiências. ''É uma peça muito representativa para períodos da minha vida, tanto civil quanto profissional. É um Raio-X do que aconteceu no universo do ator nos anos 70, 80 e 90'', conta.
Durante o espetáculo, além das fotografias, serão também exibidos em audio e vídeo depoimentos dos entrevistados, a exemplo de Ênio Carvalho, Beto Bruel, Ivanise Garcia, entre outros. Tudo com ênfase na vida teatral, mas conectado com o momento histórico pelo qual passava o País, baseado também na vivência de Zanatta. ''É importante passar por esse período novamente, essa sensação. Estou quase que representando meus próprios conflitos. Há uma parte do espetáculo em que revejo um desfile de 7 de Setembro de 1969, quando lembro o momento que desfilei em cima de um carro de marinheiro, ainda criança. Em outra parte, estou na Copa de 70, no bagageiro do Opala do meu pai. Tudo acontecia e a gente não sabia de nada'', diz o ator.
O espetáculo provoca reações e propõe a reflexão. E, acima de tudo, revela também o que foi e o que é ser ator no Brasil nessas três décadas. ''Tentamos provocar as sensações que ficaram registradas em meu corpo, em cada momento, é um registro vivo desse período'', comenta. ''É também muito revelador. A última cena é uma autocrítica sobre minha visão do teatro e do ator, me desconstruo. É uma cena que proponho a um certo risco.''
SERVIÇO
- Obsceno Eu Público
Quando - Até dia 27 de junho, de quarta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h
Onde - Teatro José Maria Santos (R. Treze de Maio, 655), em Curitiba
Quanto - R$ 20 e R$ 10 (meia)

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