A cidade do Rio de Janeiro é uma personagem cativa na história da literatura e da música brasileira. Alguns de seus bairros se tornaram verdadeiro ícones. Ipanema, por exemplo, nunca foi a mesma depois que ''Garota de Ipanena'', canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, propagou-se pelo quatro cantos do mundo. Do mesmo modo, Copacabana nunca foi a mesma após João Antônio ter publicado ''Ô Copacabana!''.
João Antônio realizou um panorama do famoso bairro carioca através de uma ótica própria. Um visão tão abrangente, e carregada de realidade, que não deixou de lado nem os ratos de seus bueiros. O livro foi publicado originalmente em 1978 e, desde então nunca recebeu outra edição. A obra volta agora às livrarias por iniciativa da Cosac & Naify com uma novidade: dois texto inéditos do escritor e jornalista.
Paulista de nascimento, João Antônio escolheu o Rio de Janeiro como residência em 1964. Procurando fugir da violenta urbanização de São Paulo, instalou-se num pequeno apartamento no meio de Copacabana. Com o passar dos anos começou a presenciar, no bairro, a mesma degradação urbana. Testemunha atenta do processo, deixou registrado em ''Ô Copacabana!'' uma impressionante fotografia verbal do local.
''Ô Copacabana!'' segue o estilo personalizado desenvolvido por João Antônio em sua literatura - a união do conto e crônica com a reportagem jornalística. A partir de uma apurada observação da realidade, ergue uma narrativa que comporta o impulso ficcional e a concretude da existência. O resultado é um texto em que o leitor tem a impressão de estar lendo um conto e, ao mesmo tempo, uma reportagem e uma crônica. Os limites entre um gênero e outro se estilhaçam abolindo qualquer tipo de fronteira.
Em ''O Copacabana!'' o autor não esconde as contradições do Rio de Janeiro nem suas próprias contradições. No texto de abertura, deixa claro que vai bater no rosto de Copacabana porque a ama: ''Meu Amor. Hoje, acordei encapetado. E me ganiu, profunda, alta, uma vontade de brigar contigo, te chutar a barriga, sua marafona engalicada! Vontade, não: gana. Urrar e vomitar sobre você. Você e tu. Mijar na tua cabeça, tronco e membros, te socar contra a parede, te fazer sangue. Ao te beijar ficou perdido de amor é o cacete. Pelas manhãs tu és a vida a cantar uma pinóia, uma ova, uma bosta. Mas és para ser entendida só por aqueles que não tiveram dinheiro nem para comer uma prato feito. E, isto sim, é a pior das sacanagens. E eu te bato porque te amo.''
O retrato de Copacabana traçado por João Antônio revela a alma carioca sem véus. Ao mesmo tempo que deixa transparecer que o passado sempre será mais interessante que o presente, não faz uma descarada defesa do passado. Apenas mostra como as contradições do presente são em maior número e que, no futuro, elas tendem a duplicar-se. A fauna urbana apresentada é ampla - turistas, operários, vagabundos, madames, gays, donos de bar, prostitutas, garotos, lésbicas, ricos, mendigos, empregadas domésticas, executivos, balconistas, policiais, assaltantes, sambistas, dançarinas, malandros, michês, traficantes, donas de casa, camelôs, jornaleiros, etc. Enfim, pessoas que dividem o mesmo perímetro territorial, o mesmo ecossistema urbano.
O literatura de João Antônio possui um estilo difícil de ser encontrado naquela produzida nos dias de hoje. O modo como ele utiliza a linguagem oral das ruas na linguagem escrita é reveladora. Seu apreço por personagem marginais ou marginalizados, que empreendem verdadeiros malabarismo pela sobrevivência, coloca sua narrativa próxima de uma realidade escondida.
Filho de português com uma carioca, João Antônio nasceu numa família pobre da periferia de São Paulo. Trabalhou como office-boy, balconista e bancário. Graças ao seu interesse pela leitura, tornou-se jornalista. Trabalhou nos principais jornais e revista do país. Foi um dos fundadores da ''Realidade'' e o criador do termo ''Imprensa Nanica'' - utilizado para designar a imprensa alternativa surgida após o golpe militar de 1964. Morreu em 1996.
Os dois textos inéditos de ''Ô Copacabana!'' focalizam universo carioca de maneira objetiva. Em ''Viva o Bicho'', o escritor apresenta a força cultural que o jogo do bicho possui no Rio de Janeiro. Em ''Carioca da Gema'' realiza uma breve descrição de como seria o autêntico carioca, aquele que sabe rir de si mesmo - ''Sabendo rir de si mesmo e de tudo, é homem capaz de se sentar ao meio-fio e chorar diante de uma tragédia.''
• ''Ô Copacabana!'', de João Antônio, Cosac & Naify Edições, apresentação de Rodrigo Lacerda, 144 páginas, R$ 22,00.

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