Um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela.
A ânsia de experimentação de Torquato Neto, proclamada nessas linhas, só foi aplacada no dia 10 novembro de 1972. O autor de ''Geléia Geral'' entrou no banheiro de sua casa, vedou as saídas de ar e abriu a torneira de gás do aquecedor do chuveiro.
Tinha 28 anos. Virou mito, uma referência para jovens poetas de ontem e de hoje. Deixou uma obra pequena, mas intensa. Torquato já era ''multimídia'' em sua época atuando em várias frentes: música, literatura, cinema e jornalismo. ''Estar bem vivo no meio das coisas é passar por elas e, de preferência, continuar passando'' anotou certa vez.
Ele participou do movimento tropicalista, mas o abandonou ao perceber sua institucionalização. Assinou composições como ''Marginália II'', ''Louvação'', ''Pra Dizer Adeus'', ''Mamãe Coragem'' e ''Ai de mim Copacabana''. Saudou o cinema marginal, do qual foi protagonista ao rodar o super-8 ''O Terror da Vermelha'' e atuar em ''Nosferatu no Brasil'' de Ivan Cardoso.
Em artigos de jornal, defendeu ardorosamente o trabalho de diretores independentes como Julio Bressane e Rogério Sganzerla contra o Cinema Novo de Glauber Rocha. Na imprensa, criou um modelo de jornalismo cultural escrevendo textos ágeis e contundentes no diário carioca Última Hora. Na coluna ''Geléia Geral'', falava de rock e do melhor da criação artística nacional.
''Por que será que eles precisam tanto sair logo rotulando as coisas?'' provocou num artigo. ''Não estão vendo que só dão mancada, uma atrás da outra? E que esse tipo de 'argumentação' faz parte de um processo muito manjado e sempre repetido? E que além de ser ignorância, em alguns casos, em outros é mesmo somente impotência, entregação, otarice e medo? E outra coisa: se a vanguarda de hoje é sempre a retaguarda de amanhã, o que será amanhã da retaguarda de hoje?''.
Um ano após sua morte, o poeta Wally Salomão e a ex-mulher de Torquato Ana Maria de Araújo Duarte publicaram uma antologia de seus escritos. A obra, ''Os Últimos Dias de Paupéria'', recebeu nova edição em 1982 e desde a década passada vem rondando outra vez o mercado editorial. Todas as preciosidades do poeta estão nesse baú.

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