As palavras que o abismo cunhou
Nova tradução da 'Epopeia de Gilgámesh', o registro literário mais antigo do mundo, resgata a poética das primeiras civilizações
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de julho de 2019
Nova tradução da 'Epopeia de Gilgámesh', o registro literário mais antigo do mundo, resgata a poética das primeiras civilizações
Marcos Losnak 
Existem mitos que são mais antigos do que o pensamento consegue imaginar. A mitologia do dilúvio divino por exemplo. A construção da arca por Noé, o embarque de várias espécies de animais, o envio de pássaros para reconhecer terra firme, a restauração da humanidade escolhida pelos deuses e muito mais.
Até um tempo atrás acreditava-se que a mitologia diluviana era uma literatura genuína das “Escrituras Hebraicas”, adotadas posteriormente pelo cristianismo com o nome de “Velho Testamento”.
Novas descobertas da arqueologia e estudos da filologia demonstram que a mitologia diluviana já estava presente na cultura suméria, civilização da Mesopotâmia, séculos e séculos antes do aparecimento dos textos bíblicos.
Após a descoberta de 12 tábuas de argila gravadas com escrita cuneiforme, a humanidade teve acesso ao texto literário mais antigo do mundo. Mais antigo que a própria “Odisseia”, mais antigo que a “Ilíada”, mais antigo que a “Bíblia”.

O texto recebeu o nome de “Epopeia de Gilgamesh” e representava a versão atribuída ao escriba Sin-léqi-unnínni que viveu no século 13 a.C. As 12 tábuas integravam a Biblioteca de Assurbanipal, rei que governou a Assíria e boa parte do Oriente Médio no século 7 a.C.
A primeira edição brasileira da obra foi lançada pela editora Ars Poetica em 1990 sob o título “Gilgamesh – Rei de Uruk”. A segunda edição surgiu em 1992, lançada pela editora Martins Fontes com o título “A Epopeia de Gilgamesh”. Ambas edições traziam a tradução da versão de língua inglesa estabelecida pela arqueóloga britânica Nancy Katharine Sandars em 1960.
Recentemente aportou nas livrarias uma nova edição intitulada “Ele Que o Abismo Viu – Epopeia de Gilgámesh”. Lançada pela editora Autêntica, traz tradução diretamente do acádio realizada por Jacyntho Lins Brandão, professor de línguas antigas da Universidade Federal de Minas Gerais.
Além da tradução realizada a partir da língua original, Jacyntho Lins Brandão resgata a formato em verso do texto original em forma de poema. Também comenta linha por linha do texto, oferecendo ao leitor uma leitura mais rica, ampla e contextualizada do amplo universo da obra.
“Ele Que o Abismo Viu” narra a história de Gilgámesh, rei da cidade de Uruk. Filho dos deuses, é um semideus formado de “dois terços deus e um terço humano”. Dotado de força e poder enorme, não encontra nenhum adversário capaz de vencê-lo. Cego pela força e pelo poder, Gilgámesh se torna um terrível tirano, um déspota sanguinário.
Para apaziguar o reino, os deuses resolvem criar um adversário à altura do rei. Uma força capaz colocar seu poder em jogo. E assim, a partir do barro (como também aparece nos textos bíblicos), criam Enkídu, um homem primitivo que vive como os animais. Para converter esse homem animal num homem civilizado, as divindades recorrem à deusa Shámhat, uma meretriz. Em outras palavra: só através do contato com uma mulher um homem é capaz de atingir o processo civilizatório.
Quando Gilgámesh e Enkídu se encontram, travam uma batalha de dias. Como o conflito termina empatado, os dois tornam-se grandes amigos. E como amigos partem em busca de aventuras e batalhas que transformam o mundo num caos. Os deuses novamente intervêm e provocam a morte de Enkídu. Amargurado e desiludido, Gilgámesh parte para uma nova aventura, agora individual: a conquista da imortalidade. Mas isso é só o começo da constatação de que deuses são deuses e homens são homens.

“Ele Que o Abismo Viu” possui uma beleza arrebatadora. O primeiro texto literário do mundo, grafado muito antes da invenção do alfabeto que conhecemos hoje, possui uma aura atordoante. A beleza do homem empenhado em ser homem com o oculto desejo de que um dia poderá ser divino. Vale citar um dos versos da Tábua 11: “Olhei o dia: posto em silêncio / E a totalidade dos homens tornara-se barro.”

Serviço:
“Ele Que o Abismo Viu - Epopeia de Gilgámesh”
Autor – Sin-léqi-unnínni
Editora – Autêntica
Tradução, introdução e comentários – Jacyntho Lins Brandão
Páginas – 320
Quanto – R$ 64,90


