O CINÉFILO FIEL -

As origens de uma anti-heroína

Em mais uma versão, "Cruella" volta aos cinemas e à plataforma de streaming num lançamento da Disney

Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Carlos Eduardo Lourenço Jorge

                Dada a instável qualidade das adaptações de live-action da grife Disney, “Cruella” (em lançamento em salas abertas ao público – em cidades onde elas existem –, em streaming/Disney e em outras vias alternativas) se destaca por sua forma estilística. No entanto, o histórico do filme o restringe a ser um produto superficial, oscilando entre enigmático e bombástico. Isso não é ruim, já que na verdade seu objetivo é entreter e agradar. E isso ele faz bem.

 

Emma Stone e Emma Thompson revivem nas telas um clássico baseado na obra de Dodie Smith
Emma Stone e Emma Thompson revivem nas telas um clássico baseado na obra de Dodie Smith | Divulgação
 


     A personagem Cruella, criada pela escritora inglesa Dodie Smith para seu romance infantil "101 Dálmatas", tornou-se uma das vilãs mais retorcidas e amadas da indústria do cinema de animação quando Disney a lançou nas telas em 1961. Depois da primeira versão live-action de 1996 (e  da segunda, de 2000), nas quais Glenn Close interpretou a designer de moda, chega agora uma versão com discurso suavizado e com uma interpretação de Emma Stone (“La La Land”), dirigida por Craig Gillespie (“I, Tonya”, 2018, inédito em Londrina). Nessa nova versão da personagem, são exploradas as passagens que viriam forjar a grande vilã, desde sua infância interrompida até o desejo de vingança contra famosa designer da época, a Baronesa, interpretada por Emma Thompson.


     Uma lembrança-referência se faz necessária, neste momento. É bom voltar àquelas explosões super-anti-heroicas de Tim Burton para compreender a paixão que os anti-heróis despertam nas produções mais populares deste século. Cruella, como Batman, ou melhor, como a Mulher-Gato/Michelle Pfeifer de “Batman: o Retorno”, 1992), tem suas razões para ser má, se justiça poética e olho por olho contam como “mal”. Este “Cruella” é um relato em primeira pessoa de violentos conflitos familiares, e deve muito ao cinema de Burton: há um desenho de produção espetacular em chave de glamour, e um mal disfarçado carinho pela anti-heroína bipolar criativa e anarquista, órfã apesar de si mesma e incompreendida pelo mundo, um ser que ganha força quando assume seu lado negro que tem a ver com filiação e herança.


     Nesse sentido, as coincidências entre “101 Dálmatas” e essa prequela excêntrica que Disney concebe com viés feminista que parece tão necessário nesses tempos de igualdade e inserção, são detalhes triviais, pelo menos na primeira parte do filme. O objetivo é limpar a imagem de uma vilã que, no clássico animado, está disposta a esfolar 101 dálmatas para desenhar seus casacos e criar uma nêmese pior do que a cruel Baronesa. Esta é uma formula/lista longa registrada, além de Burton, “O Diabo Veste Prada”, “Star Wars”, “Malévola” e outros tantos títulos que, por vezes, só por vezes, adquire um encanto entre o grotesco e o sofisticado até simpático, e que outras vezes – e isso é um mal endêmico do cinema comercial contemporâneo, quer ser muitas coisas ao mesmo tempo.


    Uma das ideias presentes em “Cruella” é que o mundo caminha para uma exigência cada vez mais elevada e confusa de moralidade. E entre o que não é aceitável, o que não é culpável e o que não é crime, qualquer indivíduo parece ter a certeza absoluta de que não há único dia sem que ele seja um vilão – coloque aspas, se julgar necessário. Nosso mundo, sendo "honesto", logicamente detesta vilões; mas o cinema os adora, e o público também. E aí está, por exemplo, o Joker/Coringa; ou aqui, neste filme, a divertida Cruella de Vil, que proporciona ao público não poucos momentos “coringa”.



Assista ao trailer de Cruella

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