As odisséias de Kubrick
Quando o recém-concluído Wide Eyes Shut bater com impacto nas telas do mundo a partir de 16 de julho, o derradeiro capítulo da curta mas formidável filmografia de Stanley Kubrick estará fornecendo mais e desconcertantes elementos para que se discuta a obra daquele que se transformou num dos mais estimulantes diretores contemporâneos. No domingo, a inesperada morte do cineasta aos 70 anos, em pleno processo de criação, com absoluta certeza priva o já rarefeito universo do cinema de um de seus mais intrépidos, teimosos e respeitados gênios.
Desde o começo da carreira, há 46 anos, Kubrick lutou para controlar sua obra e seu mundo. Se abrisse mão de qualquer um dos dois, mesmo por um segundo sequer, as incertezas da condição humana o destruiriam. Pois foi exatamente essa tendência inexaurível de organizar, mesmo nos mínimos detalhes, sua vida privada e sua arte, que o fez um realizador de brilho incomum e um homem sistemático a ponto de municiar prodigamente um anedotário sobre manias e fobias - auto-reclusão, paroxismo pelos detalhes durante as filmagens, medo-pânico de aviões, obsessão por limpeza, etc, etc.
Controle, portanto, é um dos temas principais, a palavra-chave nos filmes Kubrick - mas não a única, porque seu manancial é caudaloso. Controle do tempo e do meio ambiente pelos gângsteres que só dispõem da duração de um páreo para roubar o hipódromo em O Grande Golpe (56). Controle de homens nas trincheiras em Glória Feita de Sangue (57). Controle e tentativa de submissão e aniquilamento de um ideal em Spartacus(61). Controle de Lolita sobre o professor Humbert e a luta deste para controlar a paixão em Lolita (62). Descontrole e insanidade na orgia nuclear de Doutor Fantástico (64). A batalha pelo controle da nave espacial em 2001 (68). A tentativa de controle da personalidade humana em A Laranja Mecânica (71). Mesmo no ordenamento social embalsamado de Barry Lyndon (75), no terror glacial de O Iluminado (80) ou no hipnótico Nascido Para Matar (87), a busca do controle como oposição ao medo e ao caos surge quase como uma espécie de culto, envolto numa espécie de aura de fervor religioso. Controle e liberdade, afinal obtidos, do artista Kubrick sobre as perversas superveniências dos produtores de tesoura em punho.
A obra kubrickiana pode ser considerada como um conjunto de histórias coerentes de um modelo psicossocial do mundo. Avaliados com rigor, cada um de seus filmes se desenrola sob a ótica do pessimismo e da impotência. Para ele, relações sociais e relações afetivas estão sempre na iminência da desintegração. E se as relações humanas são via de regra irrecuperáveis, o convívio entre homem e tecnologia também está muito longe da harmonia. Moralista, para ele as coisas sempre estiveram muito claras: não há qualquer saída. Para encontrar na vida um propósito nobre ou um significado puro, o homem teria que se converter em um ser não humano, ou, como alternativa, estar mentalmente disposto a não chorar nunca. Como o Alex de A Laranja Mecânica. Impotente como pensador, restou ao artista a sublimação estética.
No final, a excepcional contribuição de Kubrick ao cinema na segunda metade do século - que o faz parecer maior que outros diretores tidos como mais perfeitos - foi sua capacidade de atacar assuntos essenciais e atemorizantes. De jovem fascinado pela força e técnica cinematográficas, Kubrick se transformou em artista profundamente preocupado com o destino de uma espécie cada vez mais presa entre a doce laranja da humanidade e o frio mecanismo da tecnologia. Conhecer ou rever seus filmes, e neles descobrir uma visão irônica, eletrizante ou apavorante dos aspectos da vida moderna - este é o maior tributo à sua maestria.
FILMOGRAFIAFrance PresseStanley Kubrick: sua morte priva o já rarefeito universo do cinema de um de seus mais intrépidos, teimosos e respeitados gêniosCarlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2





