DivulgaçãoJames Spader: o êxtase e a morte sobre quatro rodas, em ‘‘Crash’’Na noite de encerramento do Festival de Cannes do ano passado, o presidente do júri, Francis Ford Coppola, anunciou o Prêmio Especial para ‘‘Crash’’, de David Cronenberg. E argumentou fervorosamente, ressaltando ‘‘a originalidade, a audácia e a inovação’’. Hábil a maneira como Coppola colocou em evidência as qualidades do filme. A partir dali, a justificativa foi incorporada a qualquer citação, peça publicitária, iniciativa de defesa ou solidariedade diante das muitas manifestações de condenação e/ou repúdio ao filme. Que, é bom dizer, andou proibido em diversos países da Europa, inclusive em boa parte da liberal Inglaterra. O Brasil, quem diria, foi um dos raros onde a distribuição nos cinemas ocorreu sem qualquer constrangimento, permitindo que o público decidisse soberano se desejava ou não participar desta jornada absolutamente incomum em mão única e sem limites, rumo aos ferros retorcidos, ao êxtase, à dor, à vertigem e à morte.
Fascinação e repulsa Aos 53 anos, o canadense David Cronenberg está longe de ser um debutante, mas sua reputação de cineasta incomum praticamente se mantém intacta desde ‘‘Videodrome’’, de 82. A notoriedade, é certo, só viria depois, com ‘‘A Mosca’’ e ‘‘Gêmeos - Mórbida Semelhança’’. E apesar do sucesso, o cineasta soube conservar uma crua originalidade. Sempre fiel às suas obsessões (o sexo, a tecnologia, a ciência e a metamorfose, sob todas as formas impossíveis e inimagináveis), Cronenberg vem explorando, de filme para filme, por 11 vezes, um território onde somente ele parece conhecer os limites. E por ser assim excessivo e consequentemente contar somente às vezes com a adesão do público, ele provoca fascinação e repulsa em doses iguais e alternadas. ‘‘Crash’’, romance-culto de J.G Ballard (‘‘O Império do Sol’’), não foge a estas regras. Já está nas locadoras, para quem não receia defrontar com o novo.
Polêmico pela própria natureza, o filme descreve o relacionamento de um casal obcecado por sexo e automóvel. Assim resumido, em uma frase banal, ‘‘Crash’’ pode parecer um desses retratos de adolescentes do Meio Oeste americano, se espremendo no banco traseiro de um velho carro paterno. Não é bem assim. O publicitário James Ballard (James Spader) e sua mulher, Catherine (Deborah Unger), têm uma vida sexual dissipada. O casal se envolve num violento acidente de carro. Após a batida, James reencontra a dra. Helen (Holly Hunter), que acaba de perder o marido. Em companhia desta mulher, James vai descobrir um estranhíssimo mundo povoado por grandes acidentes e um culto ao sexo temperado por aço e ferro retorcidos.
Cronenberg , uma vez mais, demonstra que a essência de sua obra está na transformação sistemática do real, na inerente perversão das situações e no absurdo existencial dos personagens. Não é, obviamente, um filme para grandes platéias, ainda que audacioso. Sem dúvida é, e não existe nada conhecido em cinema que se pareça com esta frieza metálica para tratar as coisas do sexo. Destinado basicamente à polêmica, ‘‘Crash’’ trabalha provocando o espectador a um só tempo através de fundo e forma. No tema, associando tecnologia, sexo, morte e destruição, elementos muito universais e muito íntimos; e na narrativa, onde as regras clássicas estão subvertidas. Aqui o que vale é somente a força das imagens e dos sons, em busca de uma outra realidade existencial dos personagens.
Não é possível qualquer tipo de antecipação sobre quais as reações do público diante de ‘‘Crash’’. Podem ir da simples indiferença à mais ostensiva repulsa. Mas não estão descartados fascínio e sedução. Afinal, não é tão difícil perceber o que esta obra artística está celebrando: uma nova forma de sexualidade num mundo regido pela tecnologia. ‘‘Crash’’ descreve sem qualquer amenidade os efeitos perversos provocados pela cultura do automóvel. Vai mais além. Desglamuriza sem qualquer atenuante uma idéia que assombra o fim de século: o ser individual e o corpo social em mutação.

mockup