As novas sonoridades de Bowie
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quarta-feira, 22 de outubro de 1997
Guto Barra Planet Pop/AE Nova York 
Arquivo FolhaDavid Bowie:
um dos
poucos
veteranos
do rock
que não
parece
fora de
lugarDavid Bowie passou por Nova York com sua Earthling tour, em uma versão intimista do show que vai fazer parte da programação do Close Up Festival no Brasil, dia 31 na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, e em 1º de novembro no Ibirapuera, em São Paulo. Ele se apresentou recentemente no Supper Club, para cerca de 400 pessoas, a maioria convidados, provando que ainda consegue agradar a fãs com gostos variados.
Bowie chegou aos 50 anos fiel à sua proposta de tentar renovar sua sonoridade e conseguiu não soar forçado ao se agarrar na eletrônica e não espantar seus fãs mais roqueiros. Mas o melhor é que além do público se acostumar com o novo Bowie, ele também consegue se sentir à vontade dentro da nova embalagem, com a mesma capacidade de concentrar a atenção da platéia por quase duas horas com um carisma de dar inveja a seus colegas de geração. Ele é um dos poucos veteranos do rock que não parece fora de lugar e que merece ser visto também por quem não acompanhou o pop das décadas passadas.
Para tristeza dos modernos e felicidade dos antigos fãs de Bowie, Earthling não é um show apenas de drum-n-bass, como a maioria das faixas do último disco do cantor. É um show que demora para esquentar, mas esquenta. Acompanhado de bateria, teclado, guitarra e baixo, Bowie começa tocando Quicksand no violão, em estilo cool. Em seguida vem Always Crashing in the Same Car e o cover de Waiting for the Man, que mais uma vez comprova a teoria de que as músicas de Lou Reed sempre ficam melhores em versões de terceiros.
Os sons Jean Genie é a primeira da lista de músicas que ele havia prometido nunca mais tocar depois da turnê Sound + Vision, que passou pelo Brasil no começo dos anos 90. A música ganha mais peso, dando início a uma série de faixas em que a guitarra tem destaque exagerado, o que acontece também em Fashion. Duas antigas que funcionam bem por ganhar versões mais esquisitas são Fame e Scary Monsters.
O envolvimento de David Bowie com o mundo da eletrônica é curioso. Depois de se interessar pelo tecno, na época do disco The Outsider, ele passou a pesquisar o jungle. De acordo com o DJ Jeffrey, que está acompanhando a turnê tocando antes dos shows, o músico realmente ouve muito drum-n-bass hoje em dia e é fã da produção nova-iorquina de selos como a Liquid Sky Music.
O interessante é observar que, enquanto o Everything But the Girl misturado com drum-n-bass soa cool e Bjork soa sofisticado, Bowie aponta para uma sonoridade dos anos 80. Isso porque muitos dos timbres usados no show parecem antigos, principalmente o tipo de distorções na guitarra e os sons sintetizados. Enquanto a eletrônica ressuscitou os instrumentos valvulados dos anos 70, como os teclados Moog, ele está usando sintetizadores da década passada. Algumas músicas soam como se o Prodigy estivesse tocando com o equipamento do Bon Jovi, sempre com solos de guitarras espaçosos demais.
Destaques Mas as produções ganham muito no peso é na esquisitice. Quando ele começa a tocar as músicas novas, o show realmente deslancha. Im Afraid of Americans, Looking for Sattelites e Battle for Britain são boas faixas, que merecem ganhar destaque na discografia de Bowie, que, afinal, sempre viveu da fama de camaleão.
Outros destaques são I Cant Read, que está na trilha sonora do filme The Ice Storm, de Ang Lee, e a lenta Seven Years in Tibet, uma tentativa de trip hop que podia ser mais suja, mas emociona assim mesmo. A ótima Dead Man Walking, também de Earthling, ganha uma versão acústica que também mostra o quanto Bowie ainda é bom compositor, etc. O ápice da esquisitice - e um dos pontos altos do show - é uma versão quase irreconhecível de Hallo Spaceboy que ele gravou com os Pet Shop Boys e que agora poderia virar uma parceria com os Chemical Brothers.
Entre os acertos estão também as explorações de diferentes efeitos na voz de Bowie, que vão do distorcido ao dobrado com chorus, passando por vários tipos de reverberações espaciais. Ele também faz dois ótimos duetos que aproveitam bem a voz da baixista e cantora de apoio Gail Ann Dorsey, que também participou da gravação do disco. Ela se consagra cantando Superman, a penúltima canção do show.


