Sexta-feira: antropologia da arte e bom gosto na paginação que arrasa na parte gráfica

Acabou a seca. Com a boa fase atravessada pelo mercado editorial brasileiro, uma nova fornada de revistas culturais chega às livrarias juntando-se às publicações já estabelecidas.
Os títulos se multiplicam. Cult, O Carioca, Sexta-Feira, Inimigo Rumor, Poesia Sempre, Azougue, Livro Aberto e Dr Chico são algumas das revistas surgidas nos dois últimos anos reunindo de textos literários a artigos de fundo que não encontram guarida na imprensa diária - seja pelo tamanho ou pela abordagem - e nem se encaixam no modelo sisudo dos calhamaços acadêmicos.
Imagem O fenômeno, na verdade, vem desde a virada da última década quando uma série de revistas de alto nível revitalizou um filão que circulou com grande sucesso entre os anos 60 e 70. Desta vez, a tendência vem embalada pela conjuntura econômica relativamente favorável que tem barateado os custos de produção.
A grata surpresa é que além de escoarem idéias, as revistas dessa safra trazem notáveis atrativos visuais. ‘‘Uma de nossas preocupações é aliar o conteúdo à imagem, que tem sido um item desprezado pelas publicações especializadas produzidas na academia’’ - observa Paula Pinto e Silva, a produtora-executiva da revista Sexta-Feira.
Iniciativa A revista foi criada por um grupo de estudantes de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). A primeira edição saiu com uma tiragem de mil exemplares. A linha temática é variada obedecendo ao cruzamento das ciências humanas com outras disciplinas e linguagens.
Arrigo Barnabé ganha página na ‘‘Dr Chico’’ com toque de intimidade
‘‘Procuramos explorar as fronteiras e afinidades da antropologia com as artes plásticas, o cinema, o teatro, a psicanálise e a literatura’’ - explica Paula. O cardápio do número de estréia traz, entre outros destaques, entrevistas sobre cinema com o etnólogo Claude Lévi-Strauss e com a cenógrafa e diretora de teatro Daniela Thomas além de artigos sobre Timothy Leary, Mercado Mundo Mix e sexualidade contemporânea.
Livros Apesar de serem estudantes da USP, os editores lembram que a revista é uma iniciativa isolada, cuja viabilização só foi possível graças ao patrocínio de empresas privadas. Também lançada recentemente, a revista Dr Chico se diferencia por remeter à estética dos melhores fanzines em circulação na praça ostentando diagramação limpa e fotos estouradas de página inteira.
As fotos da primeira edição exibem femmes fatales do cinema, para o delírio de leitores voyeurs. Sua linha editorial tenta acolher as variadas manifestações artísticas da contemporaneidade incluindo colaboradores como o cineasta Julio Bressane, a modelo Betty Prado e o compositor Livio Tragtemberg. Figuras conhecidas como Arrigo Barnabé, Robert Crumb e Arnaldo Antunes também dão as caras.
Tiragem Arnaldo Antunes, aliás, é o entrevistado do quinto número da Livro Aberto. Seguindo a bandeira da extinta Leia Livros, a nova publicação tenta fazer a ponte entre o leitor e o mercado editorial enfocando especialmente os lançamentos.
ReproduçãoRevista Inimigo Rumor: poesia da boa na edição de estréia
‘‘Mas abrimos espaço também para discussão de idéias publicando artigos sobre Educação e textos de autores consagrados como Wally Salomão e o escritor Fausto Wolf’’ - enfatiza o editor Márcio José Rissardi Ferreira. Além da Livro Aberto, a única vendida em bancas, outras revistas têm pipocado elegendo a literatura como assunto central de suas páginas. A Cult, cujo segundo número saiu esta semana dos fornos da Lemos Editorial, ampliou a tiragem para 72 mil exemplares - 10% a mais do que o número de estréia lançado em julho.
Poesia Desta vez, a matéria de capa brinda os leitores com um ensaio do renomado crítico norte-americano George Steiner sobre o ‘‘Guia literário da Bíblia’’, livro que será publicado mês que vem no Brasil e que faz uma análise das Escrituras em termos estilísticos. No ensaio, Steiner afirma que a religiosidade deixou de fazer parte da vida cotidiana e sobrevive apenas na literatura.
A revista destaca ainda um ‘‘dossiê Dostoiévski’’ e uma entrevista com o crítico e tradutor Boris Schnaiderman. No mesmo gênero, títulos como Azougue, Inimigo Rumor e Poesia Sempre privilegiam textos literários propriamente ditos - em especial poesias e traduções.
ReproduçãoChe Guevara: um cult na capa da ‘‘CULT’’ em seu segundo número
Inéditos As duas últimas, ambas editadas no Rio de Janeiro, têm a companhia ainda da requintada revista O Carioca para celebrar a efervescência cultural da cidade maravilhosa. Já no número 4, O Carioca aborda literatura, música, artes plásticas e gráficas etc. Entre seus idealizadores estão os poetas Chacal e Wally Salomão.
Esta última edição apresenta, entre outras preciosidades, poemas inéditos de Paulo Leminski. Dá ou não dá para se esbaldar?

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