O heavy metal é, entre todas as vertentes do rock, a que mais expõe a fragilidade dos críticos. Quem se deu ao trabalho de ler o que se escreveu sobre o gênero de uma década para cá, deve ter ficado no mínimo intrigado com a incoerência dos textos, que proclamaram sua morte ao mesmo tempo em que celebraram sua revitalização.
Tanto as publicações nacionais quanto as gringas caíram nessa. E continuam repetindo a ladainha, com o rock pesado transformado simultaneamente em defunto e em objeto de constante mutação. Na última temporada, com o estouro planetário da música eletrônica, promoveu-se de novo o velório das guitarras cabeludas na mesma proporção com que se exaltou um suposto ‘‘novo metal’’.
ReproduçãoKorn: fusões com hip hopBem, senhoras e senhores, assim fica difícil. No caso do ‘‘novo metal’’, tem se falado muito de uma nova safra de bandas, cuja fórmula consistiria em misturar estilos e incorporar elementos techno à agressividade ruidosa. Encabeçariam essa tendência nomes como Soulfly, Korn e principalmente Deftones numa lista interminável que incluiria Coal Chamber, Limp Bizkit, Cradle of Filth, Pissing Razors e outras bandas menos badaladas.
Mas se boa parte desses nomes permanece desconhecida, pelo menos o som das três bandas de proa está acessível por aqui, com o lançamento de seus últimos discos pelas gravadoras nacionais. Soulfly, aliás, poderá ser conferido ao vivo na próxima terça-feira em São Paulo, quando a nova banda de Max Cavalera toca pela primeira vez no Brasil. A apresentação acontece no Ginásio da Portuguesa.
Por cima da carne seca, Soulfly foi eleita a melhor nova banda surgida este ano pela revista européia Kerrang!. Korn, por sua vez, começa a converter adeptos por aqui com seu terceiro álbum Follow the Leader(Sony). O disco foi aclamado lá fora, transportando a banda para as capas das principais publicações musicais da Europa e dos Estados Unidos.
ReproduçãoMax Cavalera: toca pela primeira vez no Brasil com sua nova banda Soulfly
Korn abusa de ritmos quebrados, com paradinhas onde voz e baixo triunfam para em seguida rivalizarem em volume com as guitarras. O CD começa com uma brincadeira, na qual a primeira música aparece no visor somente na 13ª faixa. A longa pausa da abertura é compensada na última canção, que dura 15 minutos. Entre uma e outra, o quinteto californiano liderado pelo vocalista depressivo e alcoólatra Jonathan Davis manda ver riffs arrastados, efeitos eletrônicos e fusões com o hip hop - escancaradas em ‘‘B.B.K’’, ‘‘All in the Family’’ e ‘‘Children of The Korn’’ (esta com participação do rapper Ice Cube).
A capa do disco foi desenhada pelo cultuado Todd McFarlane (criador do personagem de quadrinhos ‘‘Spawn’’), que também vai dirigir o videoclipe da faixa ‘‘Freak On A Leash’’. Ampliando o número de fãs, a banda transformou recentemente seu site na Internet (www.korntv.com) em uma estação de TV, a partir da qual ‘‘transmite’’ para o mundo um programa semanal com shows ao vivo e discussões.
Tão festejado quanto o Korn, o quarteto Deftones virou a nova sensação do metal reciclado com o estouro de seu segundo álbum Around the Fur, gravado pelo selo Maverick Records (de Madonna) e lançado no Brasil pela Warner. O hit é ‘‘Be Quiet and Drive (Far Away)’, cujo clipe a MTV coloca de vez em quando no ar.
Deftones é uma das bandas favoritas de Max Cavalera, de quem os integrantes são amigos. Max empresta voz e guitarra na faixa ‘‘Headup’’, inspirada no diário de Dana Wells, enteado do ex-vocalista do Sepultura e que foi assassinado no ano passado. ‘‘Headup’’ é um mix de Sepultura com Rage Against the Machine.
O mix sonoro reflete o mix étnico da formação, que reúne dois mexicanos, um chinês e um norte-americano. A coleção de boas canções inclui, além das duas citadas, ‘‘My Own Summer (Shove It)’ e a faixa-título, esta última remetendo a Marilyn Manson (outro que poderia figurar nesta reportagem como seu membro mais pop).
Mais do que à pancadaria heavy, porém, Deftones parece se escoltar na zoeira grunge de Nirvana e Mudhoney do começo da década. Os vocais alternam momentos melodiosos e irados, sobressaindo em meio a uma barragem de guitarras incendiárias.

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