As novas dos velhos ídolos
Nelson Sato
De Londrina
O mundo do rock, com seu voraz apetite por novidades, é cruel com os artistas. Quem tem mais de uma década de carreira torna-se quase um inconveniente no meio e, pelos serviços prestados, obtém logo uma carteirinha no clube dos veteranos com direito à aposentadoria precoce promovida pela mídia.
Alguns sujeitos, porém, conseguem suplantar a pecha graças a um passado heróico e ainda influente. O ex-Beatle Paul McCartney e o precursor do punk Iggy Pop, ambos cinquentões, são casos emblemáticos. Os dois estão com novos discos na praça. Os dois sofreram fraturas sentimentais recentes. A mulher de Paul morreu de câncer. A mulher de Iggy foi embora selando o fim de um casamento de doze anos.
Enquanto o primeiro tenta se animar com um disco do mais legítimo
rock-n-roll, o segundo parece ainda catar os cacos testando a paciência do ouvinte com textos recitados e baladas acústicas de frágil teor. Em Run Devil Run (EMI), McCartney garimpa pepitas dos anos 50 e 60 reinterpretando canções de luminares do gênero como Elvis Presley, Chuck Berry, Carl Perkins e Gene Vincent.
Sem medo de ser feliz, Macca recheia o cardápio com três músicas inéditas Not To Cry, No Other Baby e a faixa-título. Para acompanhá-lo nas gravações, convocou também um escrete de ilustres que inclui David Gilmour (guitarrista do Pink Floyd), Ian Paice (baterista do Deep Purple) e Mick Green (guitarrista do Johnny Kidd & The Pirates, famoso nos anos 50 e 60).
As faixas se sucedem abrasivas com destaques para Coquette (um lado-B de um compacto de Fats Domino), I Got Stung (Elvis Plesley), She Said Yeah (Larry Willians) e Honey Rush (Big Joe Turner). De clima oposto é Avenue B (EMI), onde Iggy Pop escancara a zica, afugentando a audiência com uma voz cavernosa acompanhado pelo grupo experimental Medeski, Martin & Wood.
Francamente, Iggy conseguiu queimar o próprio filme e também constranger a presença do grupo que esteve há poucos meses no Brasil participando do Free Jazz Festival. O CD apaga qualquer rastro de quem um dia foi um dos mais incendiários vocalistas do rock. Ouvi-lo é cair numa areia movediça de lamentações sem fim.O eterno ex-Beatle Paul McCartney e o precursor do punk Iggy Pop têm seus novos álbuns lançados no Brasil
ReproduçãoPaul McCartney regravou músicas de Elvis Presley, Chuck Berry, Gene Vincent e outrosReproduçãoIggy Pop mescla textos recitados e baladas acústicas





