Arquivo FolhaArthur Clarke é considerado um patrimônio da humanidadeAntes do homem ter colocado os pés na lua, o escritor inglês Arthur C. Clarke já vislumbrava um era espacial e computadorizada para a humanidade. Uma de suas histórias, ‘‘2001 - Uma Odisséia no Espaço’’, transformada em filme por Stanley Kubrick em 1968, cultuada em todas as partes do mundo, passou a representar um marco definitivo dentro da ficção científica.
Trinta anos depois - agora com oitenta anos de idade - Arthur C. Clarke resolveu retomar o argumento inicial de ‘‘2001 - Uma Odisséia no Espaço’’ para colocar um ponto final na saga. Saga esta que já teve outras duas partes, 2010 e 1061 que não causaram tanto impacto.
‘‘3001 - A Odisséia Final’’ chega às livrarias apresentando um futuro cada vez mais longe do planeta Terra. O próprio autor faz questão de frisar que grande parte de sua ficção está baseada em pesquisas científicas. No final do livro, em um apêndice, exemplifica como a ciência está estudando muitos dos itens que coloca em sua história, seus caminhos e possibilidades.
Clarke parece dizer que ficção científica não se faz apenas com imaginação, mas também com ciência. O melhor exemplo disto é o fato de que, a partir de um artigo escrito por ele em 1945, cientistas desenvolveram os satélites artificiais.
Em ‘‘2001 - Uma Odisséia no Espaço’’, durante uma expedição a Júpiter, o supercomputador da nave espacial procura assumir o controle da nave. Para isso começa a matar toda a tripulação, um a um. Entre das vítimas do computador HAL 9000, está o subcomandante Frank Poole. Durante um conserto na parte exterior da nave, o astronauta é desligado de seu cabo e passa a vagar pelo espaço.
Como poeira cósmica - Em ‘‘3001- A Odisséia Final’’, o corpo Frank Poole permanece congelado no imenso frio do universo, vagando como poeira cósmica. Uma nave espacial, uma rebocador de cometas, encontra o corpo congelado de Frank e através das tecnologias médicas do terceiro milênio sua vida é recuperada.
Depois de ter permanecido perdido e congelado, volta a vida depois de mil anos. Frank é o grande herói da história, a quem caberá salvar a humanidade. O ato de adormecer no passado e acordar no futuro pode ser o argumento mais comum nas toneladas de filmes de hoje, mas Arthur C. Clarke não se vê nem um pouco acanhado em usar tal argumento.
Parte das cores que pinta o século 31 são previsíveis, possíveis ou imagináveis. No próprio apêndice de ‘‘3001’’ o autor conta que depois do livro pronto ficou sabendo que a história possuía um fim semelhante ao final do filme ‘‘Independence Day’’ - a idéia de usar vírus de computador como cavalos de Tróia.
Acreditando no que criou, escreveu com certo humor: ‘‘Não sei se dou o parabéns aos autores do roteiro por esse específico traço de originalidade, ou se os acuso do crime transtemporal de plágio precognitivo. Seja como for, não posso impedir que o espectador comum ache que roubei o final de ‘‘Independence Day’’.
Arthur C. Clarke é considerado um verdadeiro patrimônio da humanidade. Ao lado de Issac Asimov, é o grande pai da ficção científica deste século. Autor de 50 obras, publicados em mais de 30 línguas, superando a marca de 20 milhões de exemplares vendidos, Clarke abandonou a Inglaterra há vinte anos para morar na pacata cidade de Colombo, litoral de Sri Lanka (antigo Ceilão).
O futuro descrito pelo escritor em ‘‘3001’’ possui a mente como base central da evolução da humanidade: ‘‘Como, em toda a Galáxia, não descobriram nada mais precioso que a Mente, incentivaram o seu alvorecer por toda a parte’’. Com o alto desenvolvimento da ciência e tecnologias, os homens se tornaram ‘‘livres da tirania da matéria’’.
Poucos são aqueles que preferem viver em terra firme. O espaço é mais saudável. O planeta consiste de quatro edifícios com 36 mil quilômetros de altura cada um. São aproximadamente 10 milhões de andares com elevadores que viajam a uma velocidade de 20 mil quilômetros por hora. Estas quatro torres-edifícios estão situadas na África, Ásia, América e Oceano Pacífico. No topo delas há um anel que circula o planeta ligando-as, uma espécie de campo de pouso de naves interplanetária. Robôs e animais geneticamente construídos realizam todo o trabalho diário. A religião foi apagada do mapa, chamada de ‘‘psicopatologia’’ - ela teria sido a cauda de muito sofrimento, tiranias, assassinatos e intolerâncias. Ao nascerem, as crianças recebem um chip inserido na palma das mãos. Todas as informações sobre o indivíduo estão ali.
Alguma vida inteligente - A grande invenção da época é a ‘‘touca cerebral’’. Trata-se de um capacete, feito sob medida, com o qual pode-se transmitir para o cérebro do usuário todo o conhecimento e informação acumulado durante a longa história das civilizações. Tudo em questão de minutos.
Arthur C. Clarke ocupa metade do livro para descrever as conquistas científicas do século 31. A outra metade, desenvolve a aventura em si: alguma vida inteligente no vasto universo acompanha o desenvolvimento da humanidade desde seu início. O problema está em que as últimas informações recebidas, devido a monumental distância anos luz, data do século 20, considerada uma época totalmente destrutiva.
Os possíveis receptores de tais informação acreditam que a humanidade oferece perigo a si mesmo e consequentemente ao universo. O problema exige uma solução, e nada mais coerente do que eliminá-la. O detalhe está no fato que a humanidade agora vive no século 31 e já resolveu este e outros problemas. Dentro de sua ficção científica, Clarke instaura uma questão filosófico que a tecnologia não dá conta. Um questão que nem ele próprio consegue elucidá-lo.
‘‘3001 - A Odisséia Final’’ de Arthur C. Clarke, Editora Nova Fronteira, tradução de Vera Ribeiro, 297 páginas, R$ 27,00/Livraria Rosa do Povo.

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