A contaminação é patente. De norte a sul do país, a eletrônica rompe resistências e avança sobre os músicos como uma nova religião estética, ainda que com um atraso de dez anos em relação às matrizes internacionais.
Os projetos variam, do techno reto às fusões com ritmos brasileiros e utilização ainda tímida de samplers e sequenciadores sob ecos de estilos distintos como drum’n’bass e trip hop. A tendência não poupou nem o Pelourinho, onde a cantora e compositora baiana Rebeca Matta destoa dos conterrâneos lançando um CD lotado de timbres, efeitos e batidas programadas.
Chegou também à terra da bombacha e do chimarrão, onde a dupla Just produz pop ambiental costurando uma ponte entre as influências oitentistas da gravadora 4AD e a cena inglesa recente. Tudo ainda é novidade, embora a última temporada tenha suprido as prateleiras das lojas com uma avalanche de CDs de artistas de renome recém-convertidos aos sons computadorizados - caso de Barão Vermelho, Lobão, Ira!, Marina e Adriana Calcanhoto.
Nenhum deles, porém, tem provocado tanto espanto quanto Rebeca Matta. O motivo, óbvio, é o contraste que seu trabalho estabelece num meio hegemonicamente dominado pela axé-music e demais ritmos regionais. Sem querer, sua figura virou uma espécie de ‘‘macumba para turistas’’ às avessas.
Tantas Coisas, seu CD de estréia, derruba classificações. Uma aproximação possível é com o trip hop, o que soa convincente dada a admiração da artista pelo grupo inglês Portishead, expoente da tendência. Convém salientar, no entanto, que a performance vocal de Rebeca está a milhas de distância de Beth Gibbons no que esta imprime de tristeza e melancolia às canções.
Tantas Coisas repele o próprio habitat. O sotaque local aparece apenas na faixa ‘‘A Gente se Perdeu’’, onde a abordagem percussiva ecoa batuques de rua de Salvador, sob zumbidos da guitarra de andré t. (que ele prefere grafar em minúsculas mesmo). A presença do parceiro é fundamental. Além de ter produzido o disco, ele é o responsável pelos processamentos eletrônicos, transformando vozes e instrumentos em outros instrumentos.
Morou quatro anos na Pensilvânia, EUA, onde estudou Informática. Lá, formou uma banda de rock progressivo. Voltou ao Brasil em 96, e logo se juntou a Rebeca Matta. No disco, Rebeca assina 6 faixas - duas em parceria. Nas demais, ela dissolve pegadas originais reinterpretando canções do grupo português Madredeus e de compositores do primeiro time da MPB.
A lei aqui é desconstruir. Assim, ‘‘Barracão’’, célebre samba de Luis Antonio e Odemar Magalhães, e ‘‘O Meu Amor’’, de Chico Buarque de Holanda, revestem-se de atmosferas sombrias ecoando Portishead, Tricky e Massive Attack. ‘‘Como Uma Onda no Mar’’, de Lulu Santos e Nelson Motta, tem a letra sussurrada sob uma levada de baixo, percussão eletrônica e ruídos sampleados.
‘‘Nada Será como Antes’’, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, é triturada com vocais distorcidos, timbres sujos de computador e guitarra cortante. É a cover mais subversiva do repertório no qual a faixa ‘‘De Qualquer Jeito’’, parceria com Josemar Souza, desponta como a mais estimulante do CD. Tantas Coisas, bancado pela Bahiatursa, ainda não ganhou distribuição nacional. Mas pode ser adquirido pelo telefone (011) 573-9423 ou 887-7430.
Menos radical na adesão à eletrônica, a dupla Just começa a divulgar seu trabalho fora das fronteiras gaúchas. Trata-se de um CD-demo gravado em estúdio portátil reunindo 8 faixas cantadas em inglês, com pequenas incursões pelo francês. Cópias em fitas já estão recebendo os primeiros elogios de fanzines.
Just foi formado em maio desse ano pela vocalista Simone Carvalho e pelo músico Luciano D. Rapidamente decidiram registrar suas primeiras composições, cujas influências remetem aos anos 80, mais particularmente aos arranjos etéreos do grupo inglês Cocteau Twins. Mas enquanto belas faixas como ‘‘Alone’’, ‘‘Home’’ e a instrumental ‘‘Mar Oceano’’ reverberam as texturas do grupo inglês, a não menos melódica ‘‘No Sadness’’ paga tributo à banda New Order.
‘‘Rollercoaster’’, faixa que fecha o CD, estica a ponte com a contemporaneidade lembrando os climas soturnos do grupo eletrônico The Future Sound of London. Contatos: tel. (051) 332-1258. Rua Dr. Barbosa Gonçalves, 777, Apto. 1111, Porto Alegre, RS. CEP 91.330-320.

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