Houve um momento chave na guerra civil espanhola, logo no início dos combates, em que se acreditou na vitória da revolução. Parecia que estava ao alcance das mãos, que muitos e muitas anarquistas estavam nas ruas ardendo com a febre da ilusão de um mundo melhor para todos. Utopia, palavra hoje tão desgastada e desprestigiada pela manipulação, tinha nas ruas de então mais força que nunca. É este momento luminoso de luta e esperança que surge retratado com força e talento em ‘‘Liberdade’’ (veja programação na página 3).
Na localidade de Vic, em 19 de julho de 1936, Maria, uma jovem noviça aterrorizada pelos acontecimentos, foge do convento com as outras freiras diante da ameaçda de que o prédio seja queimado. Este é o início de uma inesquecível aventura para Maria. Em sua trajetória se refugia num bordel, mas por pouco tempo: logo a casa é invadida por milicianas anarquistas que buscam a adesão das prostitutas para lutar pela revolução. Sem opção, a noviça se une ao grupo, onde se destacam a líder Pilar, as guerrilheiras Concha e Aura, uma prostituta chamada Charo e uma espírita e medium, Floren. Juntas, formam um curioso grupo de ‘‘libertarias’’ que segue para a região de batalhas em Aragon. Ali vão compartilhar as trincheiras com os milicianos e poderão lutar na linha de frente dos combates. Maria logo percebe que em seus companheiros, mulheres e homens, ela vai encontrar sempre fraternidade e solidariedade como em qualquer grupo de cristãos.
Guerra romântica -Ao contrário do que se poderia pensar, ‘‘Liberdade’’ (título infeliz que não sustenta a força e a veracidade do original ‘‘Libertarias’’) não nasceu do sucesso de ‘‘Terra e Liberdade’’, de Ken Loach, lançado ano passado no Brasil. Havia quinze anos que o diretor Vicente Aranda (‘‘Amantes’’, ‘‘Amante Bilingue’’, ‘‘Intruso’’) vinha acariciando a idéia, escrevendo e reescrevendo o roteiro. E só não realizou o projeto antes porque sabia de seu alto custo. Mas pelo menos num conceito Aranda coincide com o inglês Loach, quando ambos concordam que a Guerra Civil Espanhola foi muito provavelmente a última guerra romântica. Segundo o diretor, ‘‘é uma guerra muito curiosa, muito original, muito nossa. Não foi apenas a luta de um lado contra outro, naquele momento também houve uma revolução terrível tanto para os sublevados quanto para o governo’’.
De certa forma, com este filme Aranda encerra suas contas pendentes com a Guerra Civil, um acontecimento fundamental na história recente da Espanha que nunca havia ocupado lugar de destaque em sua filmografia. O diretor pretendeu - e conseguiu - fazer um filme sério mas também divertido e coerente. De resto, não há na narrativa nenhuma intenção de Aranda em impor enfoques ideológicos. O que ele pretende é estabelecer uma espécie de dialética com o público. Ao narrar a história do ponto de vista das mulheres, ‘‘Liberdade’’ convida a uma interpretação feminista, já que coloca de maneira extremamente objetiva como elas pela primeira vez perceberam a possibilidade de mudar muitas situações adversas. A ex-noviça Maria e suas companheiras imaginavam que uma nova ordem social estava a ponto de surgir, e apostaram na luta armada para poder ocupar seu lugar quando chegasse o tempo de paz.
Elenco - Com um orçamento de cerca de 10 milhões de dólares, recorde absoluto para os padrões praticados na Espanha, ‘‘Liberdade’’ foi o grande acontecimento do ano passado na península, transformando-se antes, durante e depois das filmagens no centro das atenções da imprensa e do público, sempre atento ao resgate de seu ainda hoje enevoado passado político da era franquista.
Outra razão para o interesse popular foi o elenco, que reuniu literalmente a fina flor entre as atrizes espanholas. Victoria Abril vive a anarquista espírita Floren, sempre pondo à prova o próprio idealismo, já que às vezes é cética quanto aos destinos da revolução. Maria, a noviça frágil, inocente, indefesa e bela que vê seu pequeno mundo romper-se é interpretada por Ariadna Gil, jovem atriz que consegue grandes momentos no processo de evolução do personagem , que sai do estático misticismo religioso para chegar ao anarquismo e descobre que os ideais cristãos estão muito próximos aos revolucionários. A cabeça do grupo de libertárias é Pilar, integrante da Organização Mulheres Livres. A veterana Ana Belén está à vontade para compor esta mulher do povo, sem muita cultura, valente e dura. Seu lado mais amável e humanitário vem à tona através da proteção à desestruturada Maria. O personagem masculino mais significativo é personificado por Jorge Sanz, hoje o mais requisitado ator espanhol trabalhando em seu país. Como o filho de um guerrilheiro, ele é um otimismo nato e mantém em alta suas ilusões de liberdade e anarquia. Aranda se utiliza do personagem para explicar naturalmente como os milicianos tinham sérios problemas para organizar-se enquanto exército.

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